Não era birra

Há 15 dias, saímos da igreja pela manhã e vi que tinha uma secreção no ouvido da Fê, limpei por fora e depois disso ela começou a reclamar de dor. Ela colocava a mão no ouvido e dizia que estava doendo. Chegando em casa, tentei ver alguma coisa e dava só pra ver que estava meio esquisito. Mas, no fim da tarde, eu iria para o Rio de avião, não dava tempo de ir a um hospital. Só dei um analgésico para caso a dor piorasse com a pressão do avião.

Enfim, no dia seguinte no Rio fomos a um hospital e foi diagnosticada uma otite. Ela não tinha passado a noite bem, acordou chorando algumas vezes e com certeza era o ouvido que dóia. Porém, quando a médica foi examinar o ouvido que estava ruim, essa garota berrava na sala: “Meu ouvido não, mamãe. A tia não, mamãe. Tá doendo meu ouvido.” Berrava sinistramente e me puxava, se contorcia. Tive que praticamente deitar por cima das pernas dela, segurar os braços e a médica com força segurar a cabeça. Tadinha! Foi péssimo, devia de fato estar doendo muito. Mas era preciso examinar e não tinha outro jeito. 10 dias de antibiótico.

Essa semana aconteceu o mesmo no outro ouvido. Ninguém merece, nem eu e muito menos ela. Não reclamou de dor, mas a secreção era semelhante a da primeira vez. Acordamos e fomos direto ao hospital. No estacionamento, ela começou a chorar dizendo que o ouvido estava melhor. E a cada vez que a chamavam pelo nome, ela chorava e dizia “Médico não”. Quando entramos na sala da pediatra, ela se agarrava em mim chorando. Apontou para o instrumento que examina o ouvido e dizia: “Esse não, mamãe”. Completamente traumatizada, mas dessa vez foi um pouco melhor. Acho que não estava doendo tanto, mas ela estava com medo e eu fiquei com muita dó.  Enfim, otite novamente e uma recomendação para ir a um otorrino e investigar o que houve e examinar melhor depois que tiver passado.

Tudo isso para dizer, que quem estava no hospital e via aquela cena, de uma menina de 2 anos chorando o tempo todo, me puxando pelo braço, gritando “Médico, não” e se recusando a ir quando nos chamavam, pode ter pensado muitas coisas. Que ela era mimada, que era exagerada, que não tinha disciplina em casa, que eu era uma mole e sem controle da situação, que não sabia conter uma fofa menininha. Mas, nesse caso não era isso. Provavelmente o que ela só pensava era que ia doer o mesmo tanto como da vez anterior e ela não queria passar por aquilo de novo. Simples. Estava com medo e tentando evitar, da maneira dela, passar por aquilo novamente.

Aprendi com a maternidade a julgar um pouco menos, principalmente depois que a Fernanda nasceu. Digo um pouco menos, porque acho que ainda julgo, mas já melhorei muito. Uma criança no tablet no restaurante não quer dizer que ela é abandonada e não participa dos momentos de sua família. Um pai que não vai à reunião da escola não significa que ele é ausente. A mãe que trabalha exaustivamente fora não ama menos ou não prioriza seus filhos. Uma criança berrando no hospital pode ser só medo, um medo justificado, e não uma criança que não sabe se comportar. Se tem um lugar que é cuspir para cima e cair na testa é a maternidade. E assim, a gente vai se lapidando e aprendendo a olhar para si e para as outras mães, outras crianças e famílias, com mais boa vontade.

 

 

Medo de trovão

A rotina de dormir do Davi aqui em casa é fazer xixi, escovar o dente, dar boa noite para o papai ou mamãe (dependendo de quem estiver o colocando na cama), fazer oração e dormir. Esse é o pacote básico. Muitas vezes rola uma historinha, um “deita aqui comigo”, um “me dá um carinho” (essa é irresistível!). E às vezes fica chamando a gente no quarto para falar algo nada a ver, só uma enrolação mesmo.

Outro dia, ele me chamou e eu comentei com o Diego “Começou a enrolação”. Mas dessa vez não era. Quando cheguei ao quarto, ele estava meio chorando e disse que estava com medo dos trovões. Cara, manteiga derretida ou não, meu olho encheu de lágrima na hora. Ele não estava de manha, estava com medo de verdade. Trovejava muito mesmo, muitos relâmpagos, temporal daqueles que adultos têm medo. Sou totalmente contra a forçar a criança a se virar quando está com medo, a enfrentar o medo sozinha. Eu com 35 anos detesto enfrentar meus medos sozinha, detesto sentir medo, quando ando de avião e rola turbulência, a primeira coisa que faço é me abraçar no Diego. Se eu estiver sozinha, quase quebro o braço da cadeira mesmo, de tão forte que aperto.

Então, deitei do lado dele, abracei ele bem apertado e expliquei o que era o trovão e que não precisava ter medo dele. Mas que eu ficaria ali até ele dormir. E ali abraçada com ele comecei a chorar, sem que ele notasse. Nem sei explicar direito o meu choro. Mas fiquei viajando, pensando que seria tão fácil se quando ele sentisse medo ou estivesse numa situação difícil eu resolvesse tudo com um abraço. Fiquei pensando que ele vai crescer e um dia eu não vou mais resolver tudo e que ele não vai mais ser um menininho fofo. Viagem total. Mas o tempo passa tão rápido que em muitos momentos me dá essa angústia. Terminei esse momento fazendo uma oração bem longa por ele.

Ontem, voltando da escola, ele disse que uma amiguinha tinha medo do trovão, mas que “Não precisa ter medo, né mãe? Ele é só um barulho bem alto né? É só chuva né?”

É muito, muito, é todo o amor envolvido.