O último dia

daviHoje foi o último dia do Davi na escola atual, já chorei algumas vezes por estarmos encerrando esse ciclo. Me emocionei em diversos momentos ao longo do ano, tive dúvidas, incertezas sobre qual escola escolher para o ano que vem. Mas a escola foi escolhida e estou feliz com a escolha. Depois que soube que um dos melhores amigos dele vai para a mesma, fiquei ainda mais tranquila.

No dia da formatura passei o dia todo melancólica durante a tarde, relembrando tudo o que vivemos nesse período, quantas coisas conquistamos nesses 5 anos. Davi entrou lá pouco antes de completar 6 meses, ele nem sabia sentar sozinho. Sai aos 6 anos lendo, escrevendo, sabendo somar umas coisas, questionando, entendendo, sai cheio de valores e experiências lindas vividas ali naquele espaço tão pequeno. Um menino que me enche de orgulho.

Lembro que quando pesquisava escolas, liguei nessa e na hora em que atenderam eu desliguei…um barulho de choro de criança no fundo, não fiquei com uma boa impressão. Depois recebi uma indicação muito positiva e dei uma nova chance, agendando uma visita. Gostei do que vi, entendi o porque daquele barulho ao fundo, as meninas às vezes atendem o telefone sem fio perto da sala do Berçário. Lembro também que não gostava muito quando a berçarista me dava alguma dica do que fazer e hoje chorei um tanto abraçando essa mesma berçarista! Ela foi uma pessoa essencial para a minha adaptação a tudo aquilo e dava graças a Deus quando essa berçarista vinha me dar dicas sobre a Fernanda. Era orgulho besta de mãe de primeira viagem talvez.

Como dissemos no nosso discurso da formatura, eles foram muito felizes. Muito mesmo! Em todos os momentos vividos ali, eles puderam ser crianças, tratados com individualidade, com respeito e com amor mesmo. Davi fez amigos, aprendeu o que é a delícia de ter amigos, de se identificar com o outro. Eu vou carregar no coração cada rostinho que dividiu essa etapa da vida dele e caso algum dia eu esteja esquecendo, vou lá e vejo as fotos que temos.

Encerro esse período cheia de alegria, mas transbordando mesmo. Passei alguns apertos tentando conciliar o trabalho e a maternidade, já chorei algumas vezes ao ver o Waze me indicando que eu chegaria depois do horário da escola fechar. No limite, teve um dia que o Davi foi para a casa da dona da escola, porque eu fiquei presa no trânsito e o Diego também. A escola foi a minha grande e fiel rede de apoio. Foi com aquela equipe que eu pude contar sempre nesses anos, meus braços durante o dia para cuidar e ensinar tantas coisas ao meu filho. E o principal, com tanto carinho.

Ele cresceu. Eu cresci. Minha família cresceu com essa convivência, com essa parceria incrível, sou grata a Deus pela escolha que fiz, pelas pessoas que eu conheci, pelos amigos que fizemos, por tudo o que vivemos ali. Não corto os laços totalmente com a escola, porque a Fê ainda continua lá. Mas hoje meu coração apertou.

Meu desejo é que sejamos felizes assim e que seja leve na próxima escola.

Professores marcam a gente e nossos filhos

Ontem enquanto escrevia bilhetinhos para colocar nos presentes dos professores, fiquei lembrando dos meus. É inegável a capacidade de um professor de marcar nossas vidas, tanto positivamente quanto memórias ruins também. Acredito que todos nós tenhamos uma lembrança especial de algum professor.
Eu tenho várias, minhas professoras de português do primário e do ginásio (denuniando minha velhice), a tia Marina e a Simone. Eu era ruim de interpretação, sempre me garanti na gramática, eu sabia e gostava de estudar aquilo. E elas sempre foram professoras que tinham relacionamento comigo, de afeto, de carinho. Aposto que todos que foram alunos da Simone lembram dos seus vestidos esvoaçantes. Ricardo, professor de Biologia do 2º grau (vou coninuar seguindo a linha antiga). Ele era da galera, falava a nossa língua, a gente respeitava ele sem medo, ele era amigo e tinha os quadros mais coloridos e organizados. Eu gostava de Biologia, mas nunca fui capaz de tirar notas um pouco melhores, me mantinha sempre na média. Carla, professora de Matemática ou Álgebra, também sempre gostei muito dela, muito. Eu sempre amei Matemática e isso me facilitava bastante, mas eu gostava do jeito dela.
Na faculdade, a relação já não era tão pessoal, a avaliação limitava-se em admirar ou não o professor pela sua competência, didática ou na maioria das vezes pela ausênica dela. Alguns também me marcaram, Danziger (acho que era Fernando o primeiro nome) de Fundações, ele era muito, muito bom. Amava as aulas dele, ele era gente boa também. Paulo Renato de Hidrologia, que me lembrava muito o Ricardo da época do colégio, por ser meio da galera, facilitador de algumas coisas. Antonini de Análise, por ser o “carrasco” e fazer provas bizarras que arrancavam o nosso sangue…rs, mas que com o tempo dava para ver que ele não era tão mal assim. E o de OI, que fumava um cachimbo (ou charuto?) na sala? Meu Deus. E a primeira aula que assisti na vida na Faculdade, cheguei era Cálculo I, com um professor peruano que falava enrolado e sempre olhava pro teto dando aula, chamava Perla. Também nunca esqueci. E no Mestrado, sem dúvida, Paulo Canedo, por tanto conhecimento, tanto amor pelo assunto e pelo jeito gente boa também.
O fato é que professores marcam nossas vidas como alunos e agora como mãe acho que os professores dos meus filhos também  me marcarão de alguma forma. Eles são nossos grandes parceiros, nos auxiliam na árdua tarefa de fazer das nossas crianças pessoas melhores, confiantes, felizes, questionadoras, que sabem respeitar limites e autoridades. Sim, porque eles são autoriadades dentro daquele universo. Eles podem fazer nossos filhos se sentirem amados, queridos, cuidados. E isso é muito gratificante. Faço questão de estabelecer uma relação mínima com eles, de reconhecer ao longo do ano o papel tão importante que eles desempenham.
Toda a minha admiração, reconhecimento, amor a essas pessoas que fizeram a diferença na minha vida e tantos outros que não citei. Minha gratidão aos professores dos meus filhos que passam mais tempo do dia com eles do que eu mesma e que até aqui, só tem contribuido com o desenvolvimento deles.
Parabéns a todos que escolheram esse lindo e difícil ofício. Meu desejo é que Deus abençoe o ministério de cada um!

Gratidão por uma simples entrevista

Na busca pela escola do Davi, tenho me desdobrado em pesquisar, avaliar, pagar boletos (para depois pedir a devolução…) e hoje tinha um encontro dele com a Orientadora de uma das escolas. Uma entrevista conosco, para conhecer melhor a família e tirar dúvidas.

A orientadora foi muito simpática, trouxe folhas e um monte de lápis de cor para desenhar. Ele prontamente já foi se apropriando do material e fez um desenho lindo do ursinho Puff, com direito a pote de mel, mel escorrendo pela mão do urso, Tigrão, céu, árvore. Ficou lindo mesmo. Ao final, ela recolheu e guardou o desenho.

Estava um clima bem tranquilo e cada pergunta que era feita, ele respondia, pensava, sem se intimidar. Estava muito à vontade. E eu em nenhum momento interrompi ou ajudei a responder (me segurei em vários momentos, por exemplo quando ele disse que não gostava de fazer lição de casa). Mas fiquei ao lado dele, observando o meu menino com tanta desenvoltura e tranquilidade do alto dos seus quase 6 anos.

O tempo passou! Passou, mas passou bem lindo também. Quando a orientadora pediu para eu falar um pouco dele, principais características, eu só tinha coisa legal para dizer. E não é coisa de mãe, porque nesse ponto eu não me deixo “cegar”. Reconheço as dificuldades deles, quando estão chatos, porque eles ficam chatos às vezes. Mas eu não tinha nenhum ponto relevante a destacar para a escola, algo que precisasse ser trabalhado nele quando ingressasse ali. Está tudo bem. Sempre esteve! Os pontos que ressaltei foi que ele tem dificuldade de perder, que ele quando se intimida, sente vergonha, chora. Mas não chora descompensado (esse estilo é mais da Fê…rs), chora sentido, porque de fato ficou mal, incomodado. Ele tem medo de errar, de se destacar seja por qual for o motivo. Ele não é perfeito, claro. Mas os pontos de atenção são simples, nada preocupante.

Ela ia perguntando várias coisas sobre independência, histórico escolar, hábitos como chupeta, dormir sozinho, etc…E à medida que ia respondendo sentia um sorriso querendo sair, um sorriso de feliz, feliz com o “resultado” alcançado depois de 6 anos, depois de tantas fases que passamos juntas e prestes a começar mais uma com a chegada da nova escola.

Como minha irmã sempre me diz quando conto algo dele, “meu bebê cresceu”! Daqui a 5 dias ele completa 6 anos de uma linda jornada até aqui, de um menino gente boa, questionador, inteligente e sensível.

Talvez ele nem vá para essa escola, mas foi muito bom poder no meio da semana fazer essa retrospectiva, sentir essa gratidão por ter sido escolhida para ser a mãe de um carinha maneiro como ele. Voltamos da entrevista conversando sobre o desenho, sobre qual será a futura escola, sobre a falta que ele vai fazer para a Fernanda porque ela não vai mais vê-lo na escola. Voltamos conversando: isso é ser mãe de uma criança de (quase) 6 anos. E graças a Deus por isso!

As mães dos amigos

Ontem saí com algumas mães dos amigos do meu mais velho, não tenho uma suuuuuuuuper intimidade com elas, não nos conhecemos profundamente e o tempo de convívio é relativamente baixo se comparado a outras amigas com que convivo. Porém, quando acontece, é um grupo que eu gosto muito de estar junto. Temos afinidade e alguma intimidade. Elas me fazem rir e me sinto totalmente à vontade com elas, e isso é uma das coisas que mais prezo em estar com pessoas.

Temos diferenças na maneira com a qual educamos nossos filhos, temos hábitos diferentes, estilos de vida diferentes, mas há quase 5 anos tomamos uma decisão muito importante em comum: escolhemos a mesma escola para a educação infantil das nossas crianças. Esse é o último ano deles nesta escola e durante todo esse tempo nossos filhos construíram uma amizade bonita de ver, saíram das fraldas, largaram as chupetas, estão lendo. Vivemos essas fases juntas, compartilhamos a cada reunião nossos desafios e conquistas. Quantas vezes saí aliviada dessas reuniões ao ouvir os relatos delas “Que bom que não é só lá em casa que isso acontece!”

E acredito que nós também construímos algum laço. Tenho certeza que é recíproco o sentimento de que podemos contar umas com as outras em alguma situação, quando for necessário. Talvez tenhamos outras opções, com pessoas mias íntimas, mas quando dizemos umas para as outras “Qualquer coisa, me fala que eu fico com ele/ que eu pego ele/ que eu levo ele” – é verdadeiro. Não é da boca para fora. Já houve várias situações em que uma” salvou” a outra, na carona, emprestando um chapéu de festa junina, emprestando um antitérmico que está na mochila, lembrando que amanhã é o dia de entregar os desenhos pintados da natação.

Onde quer que meu filho esteja no futuro, lembrarei sempre com muito carinho dessa escola, dessa época, dessas mães e principalmente dessas crianças que ensinaram para ele o que é ter amigos (rolou até uma lágrima agora). Espero sinceramente, do fundo do meu coração total, que na próxima escola ele tenha a mesma alegria com os futuros amigos e eu a mesma parceria com as futuras mães. Deus, estou contando contigo!

Em busca da nova escola

Ano que vem Davi obrigatoriamente terá que se mudar de escola, pois a atual só tem educação infantil e ele irá para o primeiro ano. Há uns anos cheguei a procurar algumas, achando que faria essa mudança antes, mas não fiz e acho que fiz a escolha certa em mantê-lo na escola atual.

Gostaria de acertar novamente na escolha da próxima. Tenho procurado fazer minha parte, visitando, perguntando, pesquisando e pensando sobre o assunto. Pode parecer que está cedo, mas não está. Para mim não. Porque não acho isso uma escolha fácil, sinceramente. Muitas variáveis envolvidas e embora não seja uma escolha definitiva, eu posso mudar caso não goste ou não nos adaptemos, mas não gostaria.

Queria uma escola perto de casa, com um preço de mensalidade justo, ensino forte, espaço físico grande, com valores exatamente iguais aos meus, que formassem cidadãos e não robôs. Uma pena que ela não exista. Lamento profundamente!

Em umas das que visitei a moça que me atendeu fez uma dinâmica (esse pessoal inventa tudo…), que escrevêssemos no papel o que desejávamos para os nossos filhos daqui a 10 anos, como gostaríamos de encontrá-los. Não precisava ler, só escrever mesmo. Pareceu besta na hora, mas eu escrevi e enquanto escrevia até refleti sobre o assunto. Porque no fundo quero que eles sejam felizes! Que eles se tornem homem e mulher de caráter, valores, que façam diferença onde estejam. Hoje, enquanto procuro escolas eu olho o desempenho delas no Enem, parece loucura, mas é um dado de ensino para o modelo de educação que o Brasil adota. Por enquanto o que vale ainda é o vestibular para o menino entrar na faculdade. Mas eles podem estudar na escola top da cidade, eu deixar meus rins lá pagando a mensalidade, cursarem a melhor universidade do país, mas só isso não garante que sejam felizes e bem sucedidos. Porque ser bem sucedido é beeem mais do que um diploma numa federal, embora isso ajude em alguma coisa.

Isso sem comentar a vida com Deus né? O único lugar onde de fato temos plenitude de alegria e para isso também tenho feito a parte que me cabe. E sei que Ele vai me ajudar a escolher a escola também. Porque além de todas as variáveis para escolher, tem uma que ajuda a tirar dúvida, a escola onde eu sentir paz no coração e me sentir bem em estar lá. Considero isso um sinal…

E foi isso que escrevi no papel sobre o que espero deles daqui a alguns anos: Fê e Davi, que vocês estejam aptos a enfrentar o mundo com bom humor, caráter, coragem, amor, com o intelecto diferenciado e valores que sejam os mesmos de Cristo. Que vocês possam ser bem sucedidos e principalmente felizes.

Que a próxima escola seja parceira em me ajudar a desenvolver neles tudo isso. Aguardo ansiosamente.

O verdadeiro sucesso

galo

Inicio do ano – escrita espontânea de “galo”

Essa semana tive a última reunião dos pais na escolinha do Davi. Eu gosto desse momento que a escola nos proporciona, existem dois formatos na escola deles quanto à execução das reuniões. E eu gosto dos dois. Gosto de encontrar as outras mães, elas em muitos aspectos se parecem comigo, me conforta ver que todas elas enfrentam dificuldades, que eu não sou a única que se atrasa para buscá-los, que eu não sou a única que os deixa tão cedo, que coisas que para mim foram fáceis de resolver, para algumas descubro que foi difícil e vice-versa. Gosto muito dessa troca de experiências e ideias.

Mas o principal desses momentos é a conversa com a professora individualmente. É quando antes mesmo de conversar com ela, eu já consigo sorrir ao ler o relatório sobre o desenvolvimento dele, de ir confirmando cada ponto ali registrado, de me alegrar em ver que a escola tem um olhar real e detalhado sobre o meu filho, ressaltando pontos verdadeiros da personalidade dele, a desenvolver e já desenvolvidos. Isso confirma que a escola que escolhi funciona para gente, nos atende e enxerga meu filho de forma carinhosa.

É incrível ver a evolução no aprendizado, é quase que indescritível o orgulho que dá ouvir a professora dizer tantas coisas bacanas sobre o seu filho. Conforme ela vai falando, vai passando um filme na minha cabeça, de todos os perrengues diários que eu passo para mantê-los na escola, para chegar no horário, para que a mochila esteja sempre em ordem, para que o material da natação esteja arrumado, para que o brinquedo de 6ª feira esteja escolhido, para ver se o remédio da febre na bolsa está ok, para fazer o dever de casa e devolver na 3ª feira. E ver que mais um ano se passou e tantas coisas novas ele aprendeu é motivo de muita, muita alegria para mim.

judo

Final do ano: escrita espontânea de “judô”

E, no fundo, isso é que é sucesso para mim. Ver meus filhos bem, ver o quanto eles têm aprendido e se desenvolvido, ver as conquistas deles. Não tenho dúvidas de que boa parte disso é da genética e própria personalidade deles, mas da mesma forma não tenho dúvidas de que uma importante parcela é fruto da influência que nós pais exercemos. E saí da escola como se o feedback tivesse sido sobre mim, para mim, sobre a minha conduta como mãe. Foi um ano muito importante para ele, aprendeu as letras, a reconhecer e formar palavras, a reconhecer os números e quantificar.

Poder viver isso com eles é demais, é uma bênção. Ontem quando abracei a professora meu olho encheu de lágrimas, de felicidade, de alívio por mais um ano ter terminado bem, de gratidão a Deus que é perfeito e que providencia todos os detalhes para que tudo isso seja possível. A evolução deles, de certa forma, é a minha também. No papel que mais demanda meu esforço, minha dedicação, mas no papel mais especial que eu tenho que é o de ser mãe.

 

 

Conta aí, Camilla!


camial e helenaCamilla Winch,
39 anos. Mora na Inglaterra desde 2009, casada com Alex há 5,5 anos. É tradutora e intérprete.

Mãe da Helena de 3,5 anos e de outra menina que está na barriga. 

Porque pensei nela para estar aqui: para dividir com a gente a experiência de ser mãe de uma britânica fofa e criar sua filha num país diferente e tão longe do nosso.

Como conheci a Camilla:  é meio minha prima. Ela, tia Vânia (mãe) e a Renatinha (irmã) eram as poucas pessoas que conhecíamos quando chegamos ao Rio. Quando estava grávida do Davi fomos a Londres e passamos em Brentwood para visitá-la e conhecer a Helena que era um baby.

PARTO, MÉDICOS, ASSISTÊNCIA SOCIAL ♥

Camilla:  Durante a gravidez, você é acompanhada pela “midwife”, a parteira; não um obstetra. O sistema de saúde é público e eles priorizam o parto normal. A midwife faz o parto e se houver alguma complicação, o médico está logo ali. Pode ter o parto em casa, com ótimo acompanhamento e uma ambulância de plantão. Antes de ficar grávida, pensava que ia voltar ao Brasil e fazer uma cesárea.

“Fiz um cursinho pré-natal aqui meio assustada com a naturalidade com que falam que era nosso direito exigir um parto natural, mesmo que o bebê estivesse virado. Puro medo e preconceito.”

Ia ser complicado ter o filho no Brasil e aceitei o destino (rs). Receber a Helena em meus braços depois daquele esforço, pareceu que lutamos para que ela nascesse e ela foi guerreira e eu, humildemente, fui só uma facilitadora.

Muita coisa se resolve com o médico ao telefone, que nem sempre é um pediatra, é um clínico geral. Se ele perceber que precisa de algo específico, envia ao pediatra. Um dia ela teve uma febre alta e eu, no desespero de mãe de primeira viagem, disse: ”vamos ao hospital.” E me dei conta que hospital é para emergência, MESMO. Muita coisa é possível resolver em casa, com o farmacêutico ou uma consulta com o clínico geral, sim.

Há muitas atividades para mães, crianças e famílias no geral. Muitas subsidiadas pelo Council (a prefeitura) como “health visitors”, que são assistentes sociais da saúde. Eles esclareceram muita coisa que me preocupava, como o peso da Helena, se dormia bem, se estava amamentando bem etc., sem precisar consultar um pediatra.

♥ UMA CRIANÇA BILINGUE ♥

Camilla.: Li muito a respeito de criar crianças bilíngues. Tive receio de ela ficar confusa, ter dificuldades na comunicação ou se atrasar na escola. É bom que aprendam mais de um idioma desde cedo, contanto que eu fale com ela em português e o Alex sempre em inglês. E é o que fazemos. Ela entende os dois muito bem. Têm horas que ela parece saber exatamente a diferença, se dirige a mim em português e a ele em inglês. A família que vem do Brasil sempre traz um livrinho, um vídeo, o que é ótimo.

“Ela sabe “Old McDonald’s had a farm” mas também “Atirei o pau no gato”. Ufa!”

Às vezes, ela esclarece: “The window, mummy”. E se eu não entendi direito o que ela quis dizer, ela troca de idioma “janela!”. Mas têm horas que parece que é tudo um só idioma na cabecinha dela, ela mistura tudo. Ela fala: “papai, can you abre this, please” ou “mummy, I want mais leite”. Mas li que uma hora ela separa um do outro,e ela pode se beneficiar disso para o resto da vida.

♥ A ROTINA COM A HELENA

Camilla: Trabalho em casa com tradução, sou intérprete do serviço público e me chamam em prefeituras, hospitais, tribunais etc. A Helena vai para a escolinha três vezes por semana, é quando aproveito para trabalhar. Segundas e terças não tem escola, ela tem “ginastiquinha”, natação, dança e, sempre que o tempo permite, vamos a parques, festivais (festivais mesmo, como Rock in Rio para crianças (risos)), teatrinhos. Não temos empregada, é muito caro. Antes da Helena nascer eu tirava um dia de faxina, agora eu limpo aqui e ali, quase todos os dias. Como conciliar… a gente sempre dá um jeito, né. Agora mesmo estou aqui respondendo, enquanto aguardo a roupa lavar, e ela está assistindo Bubble Guppies rs.

♥ ESCOLAS NA INGLATERRA 

Camilla.: A maioria aqui vai para escolas públicas, são muito boas. As particulares são extremamente caras. Você recebe uma carta do Council e escolhe quatro escolas, que levam em consideração alguns critérios como distância, por exemplo, e até o início de abril nos enviam para qual escola ela vai.

As melhores são as religiosas, e muitas solicitam uma carta do padre (católica) ou vigário (anglicana). Para receber essa carta, só se for parte da igreja mesmo. Tem que ir à missa, participar das atividades da comunidade etc. Senão receber a cartinha, o nome da criança deve ir para o fim da fila. A Helena foi batizada na igreja católica, mais porque eu pensei já na escola, do que por crença ou fé. Como eu e o Alex não somos religiosos e, segundo o padre, já vivemos em pecado, pois ele é divorciado, então seria hipocrisia comparecer. Vamos aguardar a escolha do Council, sem a carta.

O uniforme é básico, tirando a jaqueta ou casaco com o emblema da escola, tudo pode ser comprado numa loja de departamento. Outros uniformes incluem gravata, inclusive para meninas, chapéus e bolsas.

Acho bom que a Helena vá para uma escola pública. Ela vai ter a oportunidade de conviver com vários tipos de pessoas, classes sociais e, possivelmente, várias religiões e culturas. Acho bom que ela aprenda que existe uma diversidade e desenvolva a tolerância.

♥ REALIDADE DAS MÃES BRITÂNICAS 

Camilla: A maioria das mães trabalha fora, em período integral ou parcial, e as crianças vão para escolinha. A licença maternidade é de um ano e as mães têm flexibilidade no trabalho. Conseguem entrar em acordos, trabalhando em horários diferentes.

“Conheço mães que trabalham três, quatro vezes na semana ou até um certo horário. Muitos pais também têm uma certa flexibilidade e conseguem revezar com as mães. Acho isso muito positivo para a família.”

As mães se preocupam menos com a violência. Os índices de criminalidade são bem pequenos. As crianças andam mais soltas, com uma supervisão de longe. É comum ver uma mãe andando na frente e as crianças láaaa atrás seguindo ela de longe. No início, eu pensava: “Nossa, como ela tem coragem (risos).”

♥ ALIMENTAÇÃO 

CamillaAs crianças começam a comer coisas que eu considero porcaria muito cedo. A Helena demorou mais de dois anos para comer um bolo, por exemplo, e não fui eu que dei. Na escolinha, eles dão mais sobremesas que são doces e em casa, a sobremesa era fruta. Não é sempre, claro. Também não gosto muito do que eles chamam de “crisps”, que são as batatinhas chips, os fandangos etc., e vê-se muito por aqui a criança comendo aqueles pacotinhos.

Poucos restaurantes oferecem um cardápio saudável. São hambúrgueres, pizzas e umas linguicinhas que eu não entendo. A Helena come bem, gosta de brócolis, tomate, cenoura, berinjela e abobrinha.

“Não entendo porque um frango precisa ter um formato de estrelinha ou um peixe com brócolis precisa parecer nuggets para criança comer.” – (adorei esse comentário!!!)

A comida vira enfeite e perpetua a ideia de que criança come mal por natureza e de que comida é prazer e não alimento. Mas a maioria das mães tenta, claro, e se preocupa se estão comendo bem. Há muitos alimentos orgânicos e também bastante alimento para criança sem sal, sem açúcar, sódio reduzido etc.

♥ A RELAÇÃO DA HELENA COM O BRASIL 

Camilla: Ela tem um mapa mundi no quarto. Mostro onde a família está, ela reconhece o mapa do Brasil e a bandeira. Desde que nasceu, canto Tom, Cartola e Cazuza para ela. Ela fala que mamãe e vovó falam português e nasceram no Brasil e papai fala inglês e nasceu na Inglaterra. Ela vê aviões no céu e pergunta se estão indo para o Brasil. Ela tem livrinhos muito legais para criança sobre a mata atlântica ou sobre índios do Brasil. Ela já foi ao Brasil várias vezes, mas ainda não no Rio de Janeiro, infelizmente. E tem a família, claro. Nos falamos por What’s app, Skype, Facebook. Tento enviar o máximo de fotos e vídeos , estamos em contato constante.

♥ O QUE FAZ PERDER A PACIÊNCIA NA MATERNIDADE 

Camilla: Paciência nunca foi meu forte e não melhorou com a maternidade. As manhas, os choros sem motivo aparente, em que eu sinto que só bola de cristal resolve porque ela ainda não sabe me explicar, ou por coisa pequena como um raladinho no joelho. A minha vontade é dizer, “ok, caiu, normal, todo mundo cai, levanta, sacode a poeira” etc. (risos). Mas eu retiro forças não sei de onde para consolar a pequena. Quem sou eu para julgar o que é dolorido para ela. Ela é pequena e não tem maturidade para lidar com as próprias emoções.

“O imediatismo infantil. Quando ela quer algo ela repete até conseguir: quero suco, quero suco, quero suco, quero suco… (risos)”

Disciplinar tem sido difícil. Jamais vou bater nela e, no fundo, não acredito em castigo. Acredito em reforço positivo e o efeito disso leva um tempo, mas… mencionei que paciência não é comigo? Pois é.

Ela nunca foi de dormir bem, infelizmente. Já tentei de tudo, acalmar à noite, leite quente, sem TV, rotina, banho e até mesmo a tal técnica do “choro controlado”, mas é muito difícil. Resolve um tempo até que viajamos e a rotina se vai. Vez ou outra ela ainda corre para nossa cama e eu já estou muito cansada para relutar. Prezo muito meu sono. Sentar para comer com calma, também. Fico insuportável se não descanso ou estou com fome. Não era assim, mas é agora.

Eu sinto falta de tomar decisões só para mim. Vivi muito tempo solteira e morando sozinha. Eu gosto de ficar sozinha, realmente.

“Eu gosto de decidir o que quero fazer aos 45 do segundo tempo e, pronto, fazer; sem pensar em ninguém além de mim. Não posso mais. Minha vida não é mais só minha. Não que seja negativo, mas é algo que sinto falta vez em quando.”

♥ COMO SE DIVERTIR E DESCANSAR 

Camilla: Dormir (risos). Eu moro em Essex e não Londres, mais para o interior. Ir a Londres é uma diversão, adoro trens. Ler muito e aprender uma coisa nova. Café na esquina. Assistir seriados. Aproveitar o pouco de sol que temos e sair de casa, viajar. Adoro conhecer lugares novos aqui, com tanta história para contar, da época em que o Brasil nem tinha sido invadido pelos portugueses. Ir ao cinema ou ver um filme em casa mesmo, com o pé para cima. Tomar um vinho, comendo queijo. Sentir o cheiro do verde dos bosques e olhar tantos pássaros diferentes e coloridos, como não dá para se ver morando em São Paulo. Observar no horizonte aqueles moinhos no meio do mar, ao longe, e pensar que aquilo gera uma energia danada só com a força do vento me faz viajar. É poético, até.

♥ O QUE É SER MÃE 

Camilla: A cada dia vou descobrindo uma coisa nova e, ainda sim, não sei se é isso mesmo. Só sei que me parece uma responsabilidade enorme, mais do que pude imaginar. Acho também que o planeta precisa passar por uma mudança radical para as futuras gerações terem o mínimo de qualidade de vida, então… do fundo do meu coração, espero estar criando um ser humanozinho bom. Bom, assim, uma pessoa boa, altruísta, solidária, sensível aos problemas do mundo, tolerante com as diferenças, que contribua para sociedade de alguma forma e, claro, que seja muito, mas muito feliz.

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