Maternidade e carreira: vendo de outro jeito

Nos primeiros 5 anos da minha maternidade, tinha certeza de que eu só seria realizada se não passasse o dia inteiro trabalhando fora. Queria ter um trabalho no qual me dedicasse meio período ou me desse uma flexibilidade que os empregos “convencionais” ainda não dão. Isso para mim era, até então, o segredo do sucesso e mulher plena. Continuo achando essa uma ótima opção, mas não a única.

Um pouco disso se deve ao meu perfil não ser exatamente o totalmente esperado pelo mundo corporativo e por não ter na minha carreira a minha grande realização e ambição de vida. E isso não tem causa na maternidade, sempre foi assim, a maternidade só reforçou.

Sai do meu primeiro emprego depois de 10 anos atuando na empresa, fiquei 1 ano e meio em casa e voltei a trabalhar por conta de uma oportunidade que apareceu sem eu esperar, em um segmento que eu esperava menos ainda.  E aí meu relacionamento com o trabalho mudou um pouco, talvez eu esteja numa posição mais aderente ao meu perfil, numa posição confortável, que me desafia, onde interajo com pessoas legais, aprendo e ocupo meu tempo e minha mente. Não sei até quando será assim, se algum dia o clima lá pode mudar…. aprendi também a viver o hoje e entender que algumas coisas não precisam ser definitivas para todo o sempre. Quase nada é para todo o sempre. Então, vou levando esse modelo enquanto ele fizer sentido para mim e principalmente para o que considero bom para minha família.

Dentro do que creio, administrar e cuidar da casa e da família é o meu papel como mulher, o meu papel principal. O ponto que virou a chavinha para mim, recentemente, mais precisamente mês passado, é que para tornar isso realidade eu posso trabalhar fora ou não. Eu posso me dedicar a outras coisas e ter na minha família a minha prioridade. Ufa! Que alívio. A culpa se foi. Quase 7 anos depois de eu ter me tornado mãe…

Zero crítica a quem se dedica exclusivamente ao cuidado da casa e dos filhos, a quem deixa na escola, com familiares, com babá, quem nem leva para escola. Cada família sabe o que é melhor para si e adota o melhor modelo. É o que sempre repito: esse é o modelo que está fazendo sentido para gente agora. Aliás, um modelo nunca considerado por mim e que talvez seja um dos melhores momentos da minha vida desde que meu primogênito nasceu. O mais equilibrado por n razões, mas tenho a convicção de que sou uma mãe presente, disponível e que busca sobretudo agradar a Deus mesmo passando o dia fora de casa e deixando meus filhos com terceiros, ou para ficar menos chocante, com a minha rede de apoio. Aliás, uma excelente forma, e mais real na minha opinião, de enxergar o que muitos chamam de “terceirização dos filhos”. Graças a Deus pela maturidade, pela experiência e pela descoberta de outras formas de ser mãe. Deus não me quer perfeita, ele me quer dedicada!

Conta aí, Andrea.

andrea

Andrea Lacerda Fernandes, mãe do Bernardo (6 anos), da Ana (5 anos) e do João (1 ano). Casada com o Carlos há 11 anos.

Profissão: nutricionista

Porque pensei nela para estar aqui: Porque ela tem 3 filhos, 3 crianças e isso é motivo da minha admiração!! E sempre me pareceu uma mãe de verdade, presente, com escolhas que priorizaram a maternidade e isso se confirmou com o que ela contou aqui.

Como conheci a Andrea: no Colégio Anglo Americano Botafogo, que hoje nem existe mais. Nos conhecemos com uns 11 anos e fomos muito, muito amigas durante boa parte da adolescência, mas nos afastamos (por motivos de adolescente que hoje sinceramente não saberia explicar), mas concluimos o Ensino Médio juntas. Com as redes sociais voltamos a nos falar e estou encantada com a família linda que ela construiu. (AHHH! O marido dela também estudava na mesma escola que a gente, mas acho que eles começaram a namorar depois que a gente se formou)

♥Quando se viu grávida do 3º filho, além da alegria claro, bateu um medo?

Andrea: João veio de surpresa! O primeiro sentimento foi um misto de alegria e pânico! Liguei para a minha mãe num sábado às 7h e chorei muito! Repetia que não ia conseguir, que não daria conta! Mas horas depois o pânico passou e estava muito, muito feliz! Sempre quis ter três filhos. Desde criança, brincava que tinha três. Mas, a vida na pratica é outra. Só pensávamos no custo do colégio e plano de saúde! Já tinha dois pequenos que me consumiam às vezes mais do que acreditava ser capaz e não sabia como daria conta de um recém nascido. Estava me preparando para voltar a trabalhar após 6 anos em casa, começar tudo novamente após 4 anos também me deixou meio desesperada. Cheguei a me questionar se seria capaz de cuidar de um bebezinho, medo do ser humano que se vê em pânico diante de coisas que não planejamos conscientemente, mas que Deus mandou!

A vida nos mostra que não temos o controle de tudo e que Deus nos presenteia com bênçãos mesmo sem sabermos, sem pedirmos...

Foi a gravidez que mais curti. Passou rápido! O primeiro trimestre foi sofrido: vomitava muito, às vezes na rua, encostava as crianças na parede de um prédio e ia vomitar no meio fio. Elas ficavam me olhando apavoradas, mas depois de uma semana já estavam achando normal. Com certeza foi a gravidez mais gostosa que tive!

♥ Em que momento você decidiu parar de trabalhar fora e por quê? 

Andrea: Quando Bernardo nasceu já havia decidido reduzir o ritmo dos atendimentos. Queria amamentar o máximo de tempo, colocá-lo em primeiro lugar. Desejei muito o Bernardo, fiz tratamento, logo decidi me doar por completo. Sempre achei que a infância é a parte mais curta da vida e que queria estar próxima. Não queria deixar passar. Tinha uma vida inteira para me recuperar profissionalmente e a infância passa num piscar de olhos e não volta, não se recupera presença nem disponibilidade. Quando engravidei da Ana tive asma e perda de líquido. Tive que fazer repouso e acabei parando de vez! Tinha um bebezão e um bebezinho em casa e o primeiro ano foi muito difícil! Achei que ia pirar! Sei que nem todas as mulheres, infelizmente, podem fazer essa escolha. Muitas têm que trabalhar para ajudar em casa. Tive esse privilégio e sempre fui grata por isso!

♥ Qual a maior dificuldade que você encontra em ser mãe de 3 filhos?

Andrea: Dividir a atenção que eles demandam! Gostaria de poder dar mais atenção para cada um deles individualmente. De resto, costumo dizer que de três para dois não há muita diferença. A dificuldade fica mais na questão da mão de obra do dia a dia. Ajudar no dever de casa enquanto João tenta comer a massinha das crianças não é tão fácil! Mas são coisas que vamos acostumando. As crianças também se acostumam. Aquele negócio de fazer dever de casa em local silencioso e tranquilo aqui em casa não rola, por exemplo! Dou banho neles com João na porta do banheiro, no cercado, às vezes tranquilo, às vezes se esgoelando. Bernardo e Ana acabam sendo muito independentes. Arrumam a própria cama, comem sozinhos, levam o prato na cozinha, se vestem, se calçam, escovam os dentes sem ajuda, passam o requeijão no biscoito sozinhos. Não há tempo para exclusividades!

♥ Qual a relação deles entre si, como irmãos?

Andrea: Be e Ana vivem uma relação constante de amor e ódio, brigam o tempo todo mas não conseguem passar uma tarde um sem o outro. Cuidam um do outro. Se um vai para a casa do amigo, o outro passa o dia perguntando quando ele vai voltar! São muito amigos! Como são de idades muito próximas, brincam com os mesmos brinquedos e têm os mesmos amigos. Já com o João, me surpreendi! Achei que ia rolar muito ciúme, mas é muito amor! Eles cuidam, ajudam, dão beijo, às vezes tenho até que ficar de olho pois o amor é tão voraz que fica até perigoso! Agarram, beijam, apertam! Ana às vezes entra em disputa mas no geral, os dois têm muita paciência e carinho com o João! Bernardo é quase um pai, muita paciência!

♥ Vocês se mudaram recentemente para morar no interior do Rio. Qual foi a motivação de vocês e como tem sido a adaptação das crianças?

Andrea: Mudamos por muitos motivos: custo de vida e qualidade de vida foram os principais. Mudamos para uma casa onde as crianças brincam livres e soltas! Em nenhum momento eles se queixaram de saudades! No início, somente de saudade de um ou outro amigo do colégio, mais nada! Fugimos da violência, do consumismo, da vida cheia de necessidades, por ideologia mesmo… Descobrimos que é muito fácil precisar de pouco. Um chinelo, um short, uma bola, um patinete, uma bicicleta! Criança precisa de espaço, de ser livre, de correr! Eu também estou feliz!

É maravilhoso descobrir que a alegria não se consome. As crianças estão mais calmas, e isso também me torna mais calma, e recentemente me disseram que amaram se mudar para cá!

Eu estava desesperada por uma vida mais simples. Estava asfixiada no Rio!

♥ Como nutricionista você é muito criteriosa com a alimentação deles?

Andrea: Muito! Brinco que ser filho de nutri é expiação. Na mesa não há negociação aqui em casa. Arroz integral desde sempre, um legume e uma verdura são obrigatórios diariamente e nas duas refeições. Feijão de vários tipos e fruta na sobremesa. Só compro orgânico aqui em casa. Sou vegetariana, mas dou carne para eles em respeito ao meu marido. Porém evito muita carne vermelha e só compro frango de uma marca específica… eles nunca colocaram um biscoito maisena na boca. Sempre foi integral. João já come biscoito integral daqueles durões… o açúcar, por incrível que pareça, foi a única coisa q não consegui segurar muito. Mas restrinjo aos finais de semana e dá tudo certo!

♥ Quais as principais mudanças para melhor na Andrea que foi mãe do João e a mãe do Bernardo?

Andrea: Nossa! São tantas que acho q preciso de uma folha só para essa resposta! A principal foi: parei de querer ser perfeita! Agora só quero ser feliz! Quero curtir meu filho! Não me importo com o que os livros dizem, para o que mãe e sogra falam! Faço o que acredito! Joao é o bebê que mais estou curtindo! Hoje vejo como fui boba, como deixei de viver coisas…

Meu terceiro filho foi e é com certeza a minha redenção! A minha chance de ser a mãe que quero ser, sem interferências. De ser eu mesma!

E isso já faz valer a pena toda e qualquer dificuldade!

♥ Como você se organiza com a rotina deles ? 

Andrea: Minha vida no geral é uma loucura, para não falar uma zorra! Tenho que ser criteriosa em alguns horários senão fico louca! Almoço, jantar, banho, dever de casa, são coisas que tem hora e não se discute! Mas não me dê nenhum documento importante para eu guardar pois há 90% de chance de eu guardar e não achar nunca mais! Metade do meu dia passo catando brinquedos pelo chão. Tenho pânico de mini peças de Lego e mini roupas de boneca Poli na boca do João! Atualmente não consigo fazer quase nada para mim! Isso enlouqueceria muitas mulheres, e já me enlouqueceu por um período, mas quando olho para o Bernardo e vejo como ele cresceu rápido demais, e que daqui a pouco minha presença não será mais tão importante, meu coração se acalma e vejo que não há nada que não possa esperar mais alguns anos para ser recuperado… só tenho 36 anos e minha vida está apenas começando, já a infância deles passa num piscar de olhos e não volta mais….

♥ Você conta com alguém para te ajudar nas tarefas do dia a dia?

Andrea: Tenho uma funcionária que ajuda nas coisas da casa durante a semana e minha mãe, sempre que ela pode, me ajuda a noite, para que eu possa colocar João para dormir com tranquilidade… no resto do dia, sou só eu e eles. Carlos trabalha a semana toda no Rio e só volta na sexta. No fim de semana, ele assume as crianças e veste a roupa de super pai!

♥ Como é sua relação com a única menina do time?

Andrea: Ana é a única menina e a filha do meio! É intenso! Ana é uma molequinha cheia de personalidade e amo isso! Ela é quem me demanda mais atenção! Até mais que o João no geral.

Ana é meu equilíbrio numa família muito masculina. É meu espelho também, e isso acaba sendo minha cura! Ana me ajuda a ser uma pessoa melhor! 

♥ Do que você não abre mão na educação deles?

Andrea: Alimentação, hora de dormir e dever de casa… acho q nessa ordem! Temos um quadro de responsabilidades aqui em casa que no final da semana se converte em semanada… as tarefas devem ser cumpridas e sou bem criteriosa nisso. Nele há coisas como: arrumar a cama, colocar roupa no cesto de roupa suja, escovar os dentes, deitar para dormir sem reclamar, ser educado (bom dia boa tarde boa noite por favor e obrigado), levar o prato para a cozinha, se vestir etc… dessas tarefas não abro mão em casa…

♥ Como você consegue se organizar e ter um tempo para cuidar de você e ficar com o Carlos?

Andrea: Atualmente esse é nosso maior desafio, estamos no esforço por aqui! Quando todos dormem tentamos aproveitar para estarmos juntos. Fazemos um foundue, vemos um filme, quando os avós estão disponíveis (o que não é tão comum nos fins de semana) saímos para um restaurante… mas nada é fácil, nem simples.

Tentamos estar próximos mesmo no meio da confusão.

Sentamos no sofá, nos abraçamos, deitamos um no colo do outro… As crianças olham, às vezes com ciúmes, e dizemos que naquele momento estamos “namorando” e que não vamos dar atenção! Criamos momentos nossos mesmo no meio do caos!

♥ O que é ser mãe para você?

Andrea: É descobrir a alegria, a gratidão e a plenitude no meio do caos!

Só desabafando um pouco

Desde que me tornei mãe que fico o tempo inteiro fazendo escolhas, ou melhor, analisando o custo benefício de cada escolha. Porque escolhas todo mundo faz, o tempo inteiro na vida. Mas sem filhos, acho que elas são mais livres, são mais simples, são mais leves e trazem menos culpa. Se algum dia, algum psicólogo conseguir me explicar porque mãe carrega tanta culpa, eu agradeço. Porque independente de como tenha sido a infância, de como é o casamento, se existe casamento, de como é a rotina diária, a culpa está sempre ali. Pelo menos comigo sempre está. Da decisão de mudar de escola até se levanto da minha cama quentinha e quase cochilando porque esqueci de ligar o aquecedor do quarto da pequena, mesmo ela já estando cheia de roupas. Mas melhor levantar, porque se ela amanhecer tossindo, vou me sentir culpada.

A sensação é de que estou sempre devendo algo, para os filhos, para empresa que eu trabalho, para o meu marido, para mim. Sempre correndo atrás de minimizar um prejuízo em alguma área que não estou conseguindo cobrir totalmente ( e nunca vou, porque sou humana e uma só!! Na prática esqueço isso). Sempre me justificando internamente porque outras pessoas avançaram na carreira mais que eu, porque outras mães são mais presentes que eu, porque outras esposas conseguem fazer diferente de mim, porque outras mulheres são mais bonitas/equilibradas/decididas e bem resolvidas.

Sem qualquer discussão sobre feminismo, empoderamento, machismo, apenas um sentimento meu, despretensioso, mas é difícil demais ser mulher. Na boa, é puxado para gente. É puxado para mim. Se eu acreditasse em outras vidas diria que mesmo assim eu gostaria de ser mulher em todas elas, simplesmente pelo fato de poder engravidar, gerar uma criança. Doido demais isso, porque justamente a possibilidade de fazer parte desse milagre da vida é que torna tudo mais complexo. Mas só acredito nessa vida mesmo, então está tudo certo.

E é justamente pela relação da mulher com seu filho ser tão diferente da paterna (diferente, não disse maior, nem melhor, mais ou menos importante) é que homens têm dificuldade de entender perfeitamente o peso que tudo isso significa para gente. Acredito que isso varie com o perfil das mulheres e dos homens envolvidos, mas ainda corresponde a maioria.

Acho também que eu ainda não me conformei de que esse é o novo modelo de vida, não é possível estabelecer comparações com a vida de antes dos filhos. Mas, quase 4 anos depois eu comparo. E me culpo por isso….(Chatice!). Todos os dias me iludo ou sonho com a ideia de que poderia ser mais leve, poderia ser de outro jeito, poderia ser com menos culpa por tudo. Até minhas orações são confusas sobre esse assunto, a sorte é que Deus conhece o meu coração, sabe perfeitamente o que quero de verdade e principalmente o que é melhor para mim.

Acho que o texto ficou confuso. Mas queria desabafar, queria saber lidar direito com meus anseios, com as minhas decepções e frustrações, sem tanto choro, sem me desgastar tanto, sendo mais adulta talvez ou simplesmente me permitindo chorar e ter medo, sem a culpa maldita.

Conta aí, Aline!

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Aline Salles Kolesnik Hintze da Costa*, 33 anos (*ficou meio grande esse nome, hein?)

Mãe do Edu e da Bia, gêmeos de 2 anos.

Porque ela foi a primeira pessoa que pensei para estar aqui: Profissional dedicada e meio sinistra no que faz. E é sobre esse equilíbrio entre mercado de trabalho e maternidade de gêmeos que quis que ela compartilhasse. Ela é diretora numa empresa de varejo, na área de Operações e Negócios.(Falei que ela era sinistra…)

Casada com o Diogo há 7 anos e Administradora de Empresas.

Como a conheci: na Igreja de Pinheiros, a sogra dela é uma amiga muito querida, aquela que pega o Davi na escola quando tenho alguma emergência. Aline se tornou muito especial, por quem tenho um carinho enorme. Tem uma história de luta, mas de muitas vitórias e eu a admiro por isso, ela me transmite paz e tem um papo muito bom.

♥ Quando se viu grávida de gêmeos, além da alegria claro, bateu um medo de não dar conta de tudo o que estaria por vir mais o seu trabalho?

Aline: Fizemos tratamento para engravidar. Sempre pedi ao médico apenas um bebê, achando que eu tinha algum controle sobre a situação, rs. Depois de algumas tentativas, segui o conselho médico de colocar 2 embriões, senti naquele momento que eu realmente não controlava nada e entreguei. Dois dias antes da confirmação, Deus confirmou no meu coração através de um sinal que eram gêmeos. Meu lado racional não quis aceitar, mas 18 dias depois o ultrassom confirmou que eram dois.

“A reação foi só de alegria, a preocupação passou e só queria agradecer a Deus pela benção, me sentia especial por ter minha oração atendida em dobro.”

♥ Como foi, às voltas da licença maternidade, se ver sem emprego com dois filhos em casa para criar? Bateu algum desespero? (*quando voltou da licença, a Aline foi demitida da empresa em que estava)

Aline: Bateu sim, foi muito difícil. Não só a preocupação financeira, mas foi uma surpresa, para quem mais uma vez achava que tinha o controle de tudo. Abri mão de coisas muito sólidas para tocar o projeto que estava. Foi um mês de tristeza, questionamentos e frustração. Deus deve ter me olhado e pensado, “eu acabei de permitir tantas experiências de cuidado com ela e ela já está em dúvidas se eu estou cuidando de tudo?” Mas depois do 1º mês, tudo se acalmou, Deus abriu oportunidades e uma porta muito melhor para mim e minha família, só tenho a agradecer.

♥ Nesses dois anos, é possível indicar qual a maior dificuldade na maternidade?

Aline: Só uma? Rs. Achei muitas…Não sei como é ser mãe de um só, mas é uma enxurrada de afazeres, sentimentos que nascem num só dia e administrar tudo não é fácil. Agora entendo que a formação em administração, experiência com Logística, Supply Chain, me ajudaram muito, rs.

“O mais difícil sobre a rotina eu acho que é a ausência de pausas”.

Estou sempre ligada, o tempo todo fazendo algo e me organizando para dar conta da próxima atividade. Não existe a sensação de “ufa, é sexta, vou descansar!” Não tenho babá à noite, nem fim de semana, gosto de ser presente.  Sinto falta de um respiro, um banho mais longo, de ver um programa, de ficar com o Di a toa. (*Di é o Diogo, o marido, paulistas chamam as pessoas pela primeira sílaba do nome. Eu também faço isso às vezes.)

O mais difícil é se manter firme sobre o que acredito que é ser boa mãe. É muita gente analisando e por mais que eu não queira, acabo me culpando, me comparando. Ninguém conta o lado B da maternidade e o simples fato de eu sentir o lado B, eu me culpo. Como assim se cansar, sentir falta da sua própria vida, de ficar sozinha, conversar com calma com os amigos, se todos acham que a maternidade é sempre perfeita? Me agarro na certeza de que estou fazendo meu melhor.

♥ Com a maternidade, sua relação com o trabalho mudou ou você conseguiu adaptar a realidade de mãe com o dia a dia de uma executiva? 

Aline: Encaro o trabalho como ferramenta de transformação de vidas e isso não mudou. Quando recebi o convite de trabalhar aqui, disse que eu e a babá tínhamos horário, eles são minha prioridade e que eu não poderia ficar até tarde, etc. Meu chefe foi direto: “Respeito sua vida, sua maternidade e não vou te cobrar por horário. Vou te cobrar pela entrega do resultado como cobro qualquer um”. E isso acontece, fora exceções e viagens que tento sempre fazer bate volta ou ficar apenas 2 dias fora, saio às 18h correndo e cuido das crianças. Tenho uma equipe muito competente e a empresa me respeita, valoriza a minha maternidade e me cobra do mesmo jeito.

“Isso me aperfeiçoou, porque sou cada vez mais objetiva, invisto meu tempo no que é prioridade sendo mais eficiente.”

E claro, tenho um sentimento de admiração, gratidão e respeito maiores pela empresa, meus gestores, pares e equipe que fazem eu vestir a camisa até mais. Puxado e intenso, mas sinto que consegui equilibrar e isso me deixa bem feliz.

♥ Você acha que a relação dos seus chefes ou subordinados é outra agora que você é mãe? Ou seu posicionamento “blindou” qualquer tipo de diferenciação?

Aline: Como mudei de empresa, é difícil comparar. Sempre desperta curiosidade e admiração. “Nossa, você tem gêmeos e ainda dá conta de tudo?” Já ouvi comentários de outras mulheres: “Se você dá conta, eu também posso dar, né?” Além da capacidade de me colocar no lugar do outro, que aumentou com a maternidade e me dão mais serenidade. Mas faço tudo para separar, não uso meus filhos como desculpa. Não marco médico durante o expediente, não falto e faço de tudo para ninguém fazer esse vínculo e conseguir separar a Aline mãe e a profissional. Prefiro assim.

♥ Você tem alguma rotina especifica para manter tudo em dia, seus compromissos e atividades? Você é organizada, planejada para controlar o dia a dia? 

Aline: Tenho facilidade com processos, definir o começo, meio e fim, sou prática e muito objetiva. Não uso nenhum aplicativo, mas sou viciada em planilhas. Tenho a rotina da casa e das contas toda planilhada, meus afazeres do trabalho eu reviso toda manhã e se o assunto não é relevante, fica para depois. Como preciso sair em ponto, sou bem focada e organizada. Mas não uso muitos recursos para me organizar e virar mais uma obrigação.

♥ O que te diverte, te faz descansar um pouco?

Aline: Gosto de correr de manhã enquanto eles dormem, ver seriados e documentários, nada muito sério (minha vida já é séria), gosto de estar e receber amigos e me arrumar com muita calma (quando eles dormem). Isso me faz super bem.

♥ Como é a sua rotina com os meninos ao longo da semana? E fins de semana?

Aline: Acho fundamental a rotina e isso reflete diretamente no sucesso de cuidar de dois. Durante a semana, por 3 dias eu acordo às 6h e treino. Às 7h30 dou a mamadeira ainda dormindo, tomo banho e me arrumo. Às 8h, eles acordam, ficamos de chamego, a Rose* (*Rose é a babá) chega e vou para o trabalho a pé (o que foi uma conquista, nos mudamos para eu dar conta de tudo, estava pesado demais encarar o trânsito). Saio correndo às 18h, dispenso a Rose e brinco até umas 19h30. Oramos juntos, dou o jantar, enquanto preparo o meu e do Di. Assistimos TV nós 4 juntos, nos intervalos trocamos fraldas e escovamos os dentes. Às 21h30, faço as mamadeiras, a gente se despede (umas fofuras) e cada um vai dormir no seu bercinho. Eu e o Diogo dormimos às 23h. Final de semana sempre tem compromissos diferentes. Quando estamos no grupo de louvor da igreja, é uma correria e as avós nos ajudam demais (Salve as avós!). Tentamos manter certa rotina e curtir mais o dia, pracinha, parquinhos que eles curtem mais.

♥ Como você faz com a alimentação deles? O que você procura evitar, o que é terminantemente proibido?

Aline: Sou chatinha. Até os 2 anos não podia nada de industrializado, açucares, etc. Sempre comida caseira, nada de papinha, muita fruta. Hoje deixo ocasionalmente em festas eles comerem o bolo e doces. Está bem difícil controlar a Rose, os avós, tios e amigos.

“Já falei que vou montar um kit de torradinhas integrais, goji berry, geléia sem açúcar, barrinhas e castanhas para deixar nos avós, rs. Eles adoram tudo isso e não vejo necessidade de liberar doces sempre. Se eles gostam de coisas mais saudáveis, por que não?”

O Du é muito grande e forte (20 kilos e projeta 1,9m na fase adulta) com uma pancinha enorme. Não quero incentivá-lo aos doces para não virar obesidade infantil. Sou chata porque só eu jogo a favor, todos acham graça deles comendo besteiras e se eu não insistir, eles comeriam besteiras diariamente.

♥ Quando você perde realmente a paciência e tem vontade de pausar tudo e dormir por horas?

Aline: Dormir eu tenho vontade sempre, rs. Eu lembro de ter perdido a paciência seriamente por duas vezes. A primeira, eles tinham poucos meses e tive uma visita que sabia de tudo, dava ordens o tempo todo de como eu deveria fazer, tudo mesmo. Não via a hora dela ir embora. Hoje me seguro muito para não dar opinião, se alguma amiga precisar, é só me perguntar.

A segunda vez foi com o Eduardo. Ele estragou várias maquiagens e cremes novinhos, um seguido do outro. Dava a bronca, colocava de castigo e 30 minutos depois aprontava outra e não parava. Fiquei muito brava, com vontade de esganar ou fugir ou largar na avó, rs. O Diogo ficou surpreso com a minha irritação. Mas sei que vou perder muitas vezes ainda, está só começando, rs.

♥ O que é ser mãe para você? (*fiquei toda emocionada com essa resposta, não tenho gêmeos, mas muito em breve terei dois)

Aline: É se achar a melhor pessoa do mundo por vê-los me amando e admirando o tempo todo.

“É diariamente ter que escolher em quem dar o primeiro abraço, esquecer o que é ter casa arrumada, sem brinquedo espalhado.”

É virar referência: a mãe dos gêmeos. É se encher de culpa quando os dois precisam de mim e eu tenho que escolher um para dar atenção primeiro. É transformar qualquer atividade numa linha de produção. É analisar com carinho as semelhanças e diferenças de cada um e tentar aprender com isso. É assistir um desenho com os dois braços ocupados de abraço. É transformar qualquer saidinha numa aventura. É gastar dobrado. É ter duas vidinhas para acompanhar e amar ao mesmo tempo. É gerenciar conflitos, porque o brinquedo que está na mão do outro é sempre mais legal. É perceber como mesmo em ambientes tão grandes eles preferem ficar juntos, sempre encostando um no outro. É chamar atenção pela curiosidade das pessoas ao ver a dupla. É ter prazer ao responder mil vezes às mesmas perguntas de quem acha o máximo ter gêmeos, ainda mais um casal. É ver o coração se derreter quando os dois se abraçam e cuidam um do outro. É ter orgulho de receber de Deus o presente da maternidade em dobro e em casal. É ter a certeza de que mãe não ama um filho mais que o outro e no meu coração eles cabem por inteiro.