Cansada, mas feliz

Sinto muita, muita falta de não ter nada para fazer. Sinto muita falta de escolher como ocupar o meu tempo, de ter tempo, ter tempo para mim, de ter a mente livre. Parece que desde que me tornei mãe ela está sempre 100% do tempo ocupada, tentando otimizar minha rotina de forma a caber tudo, sempre ocupada pensando neles, pensando que a escola fecha antes de eu sair de férias e não sei como farei com as crianças nos 3 últimos dias, pensando que não tem frutas para comer no fim de semana e eu tenho que encontrar um intervalo para comprá-las.

Só queria chegar em casa, seja de onde for, me jogar no sofá, ligar a TV em um canal X e adormecer ali. Nem lembro a última vez que sentei no sofá e vi TV por alguns minutos. Só queria não ser uma máquina de to-do-lists. Sábado passado tinha tanta coisa para fazer que eu acordei às 6:30h da manhã. Tudo bem que uma dessas coisas era dar um jeito no meu cabelo, mas essa era a única que eu não ia cancelar mesmo, porque minha auto estima estava precisando! Então, para que isso acontecesse, tive que acordar super cedo.

Por dois dias essa semana fiz um treinamento na empresa, na hora do almoço decidi sair sozinha para almoçar, porque queria comer rápido e aproveitar para dar uma voltinha no shopping e porque eu queria ficar sozinha. Ficar comigo, fazer alguma coisa para mim, escolher o restaurante sem perguntar se todo mundo concorda, comer no ritmo que eu estivesse a fim e depois comprar dois shorts e uma blusa. No último dia, o treinamento acabou um pouco mais cedo e eu pensei em aproveitar o tempo e passar no hortifruti para comprar umas frutas…Pensei por alguns minutos e conclui “Que se danem as frutas”, voltei para o shopping sentei num lugar delícia e pedi uma fatia de bolo com um café. Saí dali, comprei dois livrinhos para o Davi (a mente nunca está livre) e ainda deu tempo de comprar as frutas e chegar a tempo na escola.

Comecei o texto dizendo que queria escolher como usar o meu tempo. Mas na verdade eu escolhi e escolho todos os dias: ser mãe dos meus filhos em tempo integral mesmo que eu trabalhe fora. Entende? Eles passam quase doze horas na escola, se eu delegar o pouco de tempo que nos resta juntos durante a semana, ia ferir o que eu acredito, o que eu espero de mim mesma como mãe. Morro de preguiça de dar banho na Fê, mas é isso ai, tem que tomar banho e sou eu mesma que vou dar. Foi essa escolha que eu fiz, eu escolhi ter filhos, eu escolhi continuar trabalhando fora, eu escolhi esse modelo de criação e todas as vezes em que me questiono se eu não poderia contemplar outras alternativas, uma babá por exemplo, eu continuo com a convicção de que é isso. Juro que sinto um sussurro de Deus no meu ouvido dizendo “Continua assim mesmo”. Continuo achando que fiz a escolha certa para mim, para nós e de que outras coisas eu posso deixar de lado, não tem mais jantar todo dia aqui em casa por exemplo. Uma das vantagens com o segundo filho é que sei a velocidade com que as coisas passam, sei que elas passam e novos desafios sempre virão. Sei que tenho construído um relacionamento com eles, tento ao máximo ser uma mãe presente dentro do tempo que disponho com eles.

As pessoas sempre pensam o quão caro é ter filhos e eu sempre digo que o fator financeiro é relevante sim, não seria irresponsável de dizer que isso não é importante, mas a mudança que filho impõe no nosso modelo de vida, nas expectativas, na maneira de ver o mundo é impressionante. Por isso tenho saudade de mim, da leveza de antes da maternidade, da forma despretensiosa de se viver os dias, da época em que achava que sabia o que era cansaço. Mas ao mesmo tempo que tenho saudade, é como se Davi e Fernanda sempre tivessem existido, são eles que preenchem tudo, que consomem tudo também. São a minha herança! E a beleza de tudo isso é que nem o cansaço que sinto há 4 anos, nem a saudade de uma época, conseguem chegar perto do amor que tem dentro de mim, nem da realização que me dá vê-los crescendo e ver suas conquistas.

Sou uma mulher mais cansada, mas sou mais capaz, mais segura e sobretudo mais feliz!

Só desabafando um pouco

Desde que me tornei mãe que fico o tempo inteiro fazendo escolhas, ou melhor, analisando o custo benefício de cada escolha. Porque escolhas todo mundo faz, o tempo inteiro na vida. Mas sem filhos, acho que elas são mais livres, são mais simples, são mais leves e trazem menos culpa. Se algum dia, algum psicólogo conseguir me explicar porque mãe carrega tanta culpa, eu agradeço. Porque independente de como tenha sido a infância, de como é o casamento, se existe casamento, de como é a rotina diária, a culpa está sempre ali. Pelo menos comigo sempre está. Da decisão de mudar de escola até se levanto da minha cama quentinha e quase cochilando porque esqueci de ligar o aquecedor do quarto da pequena, mesmo ela já estando cheia de roupas. Mas melhor levantar, porque se ela amanhecer tossindo, vou me sentir culpada.

A sensação é de que estou sempre devendo algo, para os filhos, para empresa que eu trabalho, para o meu marido, para mim. Sempre correndo atrás de minimizar um prejuízo em alguma área que não estou conseguindo cobrir totalmente ( e nunca vou, porque sou humana e uma só!! Na prática esqueço isso). Sempre me justificando internamente porque outras pessoas avançaram na carreira mais que eu, porque outras mães são mais presentes que eu, porque outras esposas conseguem fazer diferente de mim, porque outras mulheres são mais bonitas/equilibradas/decididas e bem resolvidas.

Sem qualquer discussão sobre feminismo, empoderamento, machismo, apenas um sentimento meu, despretensioso, mas é difícil demais ser mulher. Na boa, é puxado para gente. É puxado para mim. Se eu acreditasse em outras vidas diria que mesmo assim eu gostaria de ser mulher em todas elas, simplesmente pelo fato de poder engravidar, gerar uma criança. Doido demais isso, porque justamente a possibilidade de fazer parte desse milagre da vida é que torna tudo mais complexo. Mas só acredito nessa vida mesmo, então está tudo certo.

E é justamente pela relação da mulher com seu filho ser tão diferente da paterna (diferente, não disse maior, nem melhor, mais ou menos importante) é que homens têm dificuldade de entender perfeitamente o peso que tudo isso significa para gente. Acredito que isso varie com o perfil das mulheres e dos homens envolvidos, mas ainda corresponde a maioria.

Acho também que eu ainda não me conformei de que esse é o novo modelo de vida, não é possível estabelecer comparações com a vida de antes dos filhos. Mas, quase 4 anos depois eu comparo. E me culpo por isso….(Chatice!). Todos os dias me iludo ou sonho com a ideia de que poderia ser mais leve, poderia ser de outro jeito, poderia ser com menos culpa por tudo. Até minhas orações são confusas sobre esse assunto, a sorte é que Deus conhece o meu coração, sabe perfeitamente o que quero de verdade e principalmente o que é melhor para mim.

Acho que o texto ficou confuso. Mas queria desabafar, queria saber lidar direito com meus anseios, com as minhas decepções e frustrações, sem tanto choro, sem me desgastar tanto, sendo mais adulta talvez ou simplesmente me permitindo chorar e ter medo, sem a culpa maldita.