Conta aí, Andrea.

andrea

Andrea Lacerda Fernandes, mãe do Bernardo (6 anos), da Ana (5 anos) e do João (1 ano). Casada com o Carlos há 11 anos.

Profissão: nutricionista

Porque pensei nela para estar aqui: Porque ela tem 3 filhos, 3 crianças e isso é motivo da minha admiração!! E sempre me pareceu uma mãe de verdade, presente, com escolhas que priorizaram a maternidade e isso se confirmou com o que ela contou aqui.

Como conheci a Andrea: no Colégio Anglo Americano Botafogo, que hoje nem existe mais. Nos conhecemos com uns 11 anos e fomos muito, muito amigas durante boa parte da adolescência, mas nos afastamos (por motivos de adolescente que hoje sinceramente não saberia explicar), mas concluimos o Ensino Médio juntas. Com as redes sociais voltamos a nos falar e estou encantada com a família linda que ela construiu. (AHHH! O marido dela também estudava na mesma escola que a gente, mas acho que eles começaram a namorar depois que a gente se formou)

♥Quando se viu grávida do 3º filho, além da alegria claro, bateu um medo?

Andrea: João veio de surpresa! O primeiro sentimento foi um misto de alegria e pânico! Liguei para a minha mãe num sábado às 7h e chorei muito! Repetia que não ia conseguir, que não daria conta! Mas horas depois o pânico passou e estava muito, muito feliz! Sempre quis ter três filhos. Desde criança, brincava que tinha três. Mas, a vida na pratica é outra. Só pensávamos no custo do colégio e plano de saúde! Já tinha dois pequenos que me consumiam às vezes mais do que acreditava ser capaz e não sabia como daria conta de um recém nascido. Estava me preparando para voltar a trabalhar após 6 anos em casa, começar tudo novamente após 4 anos também me deixou meio desesperada. Cheguei a me questionar se seria capaz de cuidar de um bebezinho, medo do ser humano que se vê em pânico diante de coisas que não planejamos conscientemente, mas que Deus mandou!

A vida nos mostra que não temos o controle de tudo e que Deus nos presenteia com bênçãos mesmo sem sabermos, sem pedirmos...

Foi a gravidez que mais curti. Passou rápido! O primeiro trimestre foi sofrido: vomitava muito, às vezes na rua, encostava as crianças na parede de um prédio e ia vomitar no meio fio. Elas ficavam me olhando apavoradas, mas depois de uma semana já estavam achando normal. Com certeza foi a gravidez mais gostosa que tive!

♥ Em que momento você decidiu parar de trabalhar fora e por quê? 

Andrea: Quando Bernardo nasceu já havia decidido reduzir o ritmo dos atendimentos. Queria amamentar o máximo de tempo, colocá-lo em primeiro lugar. Desejei muito o Bernardo, fiz tratamento, logo decidi me doar por completo. Sempre achei que a infância é a parte mais curta da vida e que queria estar próxima. Não queria deixar passar. Tinha uma vida inteira para me recuperar profissionalmente e a infância passa num piscar de olhos e não volta, não se recupera presença nem disponibilidade. Quando engravidei da Ana tive asma e perda de líquido. Tive que fazer repouso e acabei parando de vez! Tinha um bebezão e um bebezinho em casa e o primeiro ano foi muito difícil! Achei que ia pirar! Sei que nem todas as mulheres, infelizmente, podem fazer essa escolha. Muitas têm que trabalhar para ajudar em casa. Tive esse privilégio e sempre fui grata por isso!

♥ Qual a maior dificuldade que você encontra em ser mãe de 3 filhos?

Andrea: Dividir a atenção que eles demandam! Gostaria de poder dar mais atenção para cada um deles individualmente. De resto, costumo dizer que de três para dois não há muita diferença. A dificuldade fica mais na questão da mão de obra do dia a dia. Ajudar no dever de casa enquanto João tenta comer a massinha das crianças não é tão fácil! Mas são coisas que vamos acostumando. As crianças também se acostumam. Aquele negócio de fazer dever de casa em local silencioso e tranquilo aqui em casa não rola, por exemplo! Dou banho neles com João na porta do banheiro, no cercado, às vezes tranquilo, às vezes se esgoelando. Bernardo e Ana acabam sendo muito independentes. Arrumam a própria cama, comem sozinhos, levam o prato na cozinha, se vestem, se calçam, escovam os dentes sem ajuda, passam o requeijão no biscoito sozinhos. Não há tempo para exclusividades!

♥ Qual a relação deles entre si, como irmãos?

Andrea: Be e Ana vivem uma relação constante de amor e ódio, brigam o tempo todo mas não conseguem passar uma tarde um sem o outro. Cuidam um do outro. Se um vai para a casa do amigo, o outro passa o dia perguntando quando ele vai voltar! São muito amigos! Como são de idades muito próximas, brincam com os mesmos brinquedos e têm os mesmos amigos. Já com o João, me surpreendi! Achei que ia rolar muito ciúme, mas é muito amor! Eles cuidam, ajudam, dão beijo, às vezes tenho até que ficar de olho pois o amor é tão voraz que fica até perigoso! Agarram, beijam, apertam! Ana às vezes entra em disputa mas no geral, os dois têm muita paciência e carinho com o João! Bernardo é quase um pai, muita paciência!

♥ Vocês se mudaram recentemente para morar no interior do Rio. Qual foi a motivação de vocês e como tem sido a adaptação das crianças?

Andrea: Mudamos por muitos motivos: custo de vida e qualidade de vida foram os principais. Mudamos para uma casa onde as crianças brincam livres e soltas! Em nenhum momento eles se queixaram de saudades! No início, somente de saudade de um ou outro amigo do colégio, mais nada! Fugimos da violência, do consumismo, da vida cheia de necessidades, por ideologia mesmo… Descobrimos que é muito fácil precisar de pouco. Um chinelo, um short, uma bola, um patinete, uma bicicleta! Criança precisa de espaço, de ser livre, de correr! Eu também estou feliz!

É maravilhoso descobrir que a alegria não se consome. As crianças estão mais calmas, e isso também me torna mais calma, e recentemente me disseram que amaram se mudar para cá!

Eu estava desesperada por uma vida mais simples. Estava asfixiada no Rio!

♥ Como nutricionista você é muito criteriosa com a alimentação deles?

Andrea: Muito! Brinco que ser filho de nutri é expiação. Na mesa não há negociação aqui em casa. Arroz integral desde sempre, um legume e uma verdura são obrigatórios diariamente e nas duas refeições. Feijão de vários tipos e fruta na sobremesa. Só compro orgânico aqui em casa. Sou vegetariana, mas dou carne para eles em respeito ao meu marido. Porém evito muita carne vermelha e só compro frango de uma marca específica… eles nunca colocaram um biscoito maisena na boca. Sempre foi integral. João já come biscoito integral daqueles durões… o açúcar, por incrível que pareça, foi a única coisa q não consegui segurar muito. Mas restrinjo aos finais de semana e dá tudo certo!

♥ Quais as principais mudanças para melhor na Andrea que foi mãe do João e a mãe do Bernardo?

Andrea: Nossa! São tantas que acho q preciso de uma folha só para essa resposta! A principal foi: parei de querer ser perfeita! Agora só quero ser feliz! Quero curtir meu filho! Não me importo com o que os livros dizem, para o que mãe e sogra falam! Faço o que acredito! Joao é o bebê que mais estou curtindo! Hoje vejo como fui boba, como deixei de viver coisas…

Meu terceiro filho foi e é com certeza a minha redenção! A minha chance de ser a mãe que quero ser, sem interferências. De ser eu mesma!

E isso já faz valer a pena toda e qualquer dificuldade!

♥ Como você se organiza com a rotina deles ? 

Andrea: Minha vida no geral é uma loucura, para não falar uma zorra! Tenho que ser criteriosa em alguns horários senão fico louca! Almoço, jantar, banho, dever de casa, são coisas que tem hora e não se discute! Mas não me dê nenhum documento importante para eu guardar pois há 90% de chance de eu guardar e não achar nunca mais! Metade do meu dia passo catando brinquedos pelo chão. Tenho pânico de mini peças de Lego e mini roupas de boneca Poli na boca do João! Atualmente não consigo fazer quase nada para mim! Isso enlouqueceria muitas mulheres, e já me enlouqueceu por um período, mas quando olho para o Bernardo e vejo como ele cresceu rápido demais, e que daqui a pouco minha presença não será mais tão importante, meu coração se acalma e vejo que não há nada que não possa esperar mais alguns anos para ser recuperado… só tenho 36 anos e minha vida está apenas começando, já a infância deles passa num piscar de olhos e não volta mais….

♥ Você conta com alguém para te ajudar nas tarefas do dia a dia?

Andrea: Tenho uma funcionária que ajuda nas coisas da casa durante a semana e minha mãe, sempre que ela pode, me ajuda a noite, para que eu possa colocar João para dormir com tranquilidade… no resto do dia, sou só eu e eles. Carlos trabalha a semana toda no Rio e só volta na sexta. No fim de semana, ele assume as crianças e veste a roupa de super pai!

♥ Como é sua relação com a única menina do time?

Andrea: Ana é a única menina e a filha do meio! É intenso! Ana é uma molequinha cheia de personalidade e amo isso! Ela é quem me demanda mais atenção! Até mais que o João no geral.

Ana é meu equilíbrio numa família muito masculina. É meu espelho também, e isso acaba sendo minha cura! Ana me ajuda a ser uma pessoa melhor! 

♥ Do que você não abre mão na educação deles?

Andrea: Alimentação, hora de dormir e dever de casa… acho q nessa ordem! Temos um quadro de responsabilidades aqui em casa que no final da semana se converte em semanada… as tarefas devem ser cumpridas e sou bem criteriosa nisso. Nele há coisas como: arrumar a cama, colocar roupa no cesto de roupa suja, escovar os dentes, deitar para dormir sem reclamar, ser educado (bom dia boa tarde boa noite por favor e obrigado), levar o prato para a cozinha, se vestir etc… dessas tarefas não abro mão em casa…

♥ Como você consegue se organizar e ter um tempo para cuidar de você e ficar com o Carlos?

Andrea: Atualmente esse é nosso maior desafio, estamos no esforço por aqui! Quando todos dormem tentamos aproveitar para estarmos juntos. Fazemos um foundue, vemos um filme, quando os avós estão disponíveis (o que não é tão comum nos fins de semana) saímos para um restaurante… mas nada é fácil, nem simples.

Tentamos estar próximos mesmo no meio da confusão.

Sentamos no sofá, nos abraçamos, deitamos um no colo do outro… As crianças olham, às vezes com ciúmes, e dizemos que naquele momento estamos “namorando” e que não vamos dar atenção! Criamos momentos nossos mesmo no meio do caos!

♥ O que é ser mãe para você?

Andrea: É descobrir a alegria, a gratidão e a plenitude no meio do caos!

Uma cicatriz em mim

bandaidEm janeiro, eu e Davi estávamos brincando numa piscina de criança, quando ele ao caminhar dentro da piscina para pegar uma bola, acabou batendo o supercílio na borda da piscina. Ao ver que ele tinha caído muito próximo à borda, já fui indo até ele e quando ele levantou já foi aos berros. Sou uma pessoa que ao ver um machucado sinistro, sangue ou pontos passo um pouco mal. Não é exagero. Sei lá o que me dá, minha pressão baixa, quase desmaio. Pois bem, só estávamos nós dois ali e assim que o levantei olhei imediatamente para a boca. Tudo ok. Mas quando olhei para a testa, o sangue já estava escorrendo igualzinho um lutador de boxe. Inacreditavelmente, sai calmamente à procura de ajuda, pois estávamos num hotel no Rio. Fui acalmando ele e quando avistei um salva vidas perguntei onde tinha uma enfermaria e ele prontamente já foi chamando alguém pelo rádio para nos ajudar. Davi a essa altura já não estava mais chorando. Enquanto a ajuda chegava, fui avisar ao meu marido que lia um livro ao lado da caçula que dormia numa espreguiçadeira. Nisso, uma moça muito simpática, enfermeira, que me viu conversando com o salva vidas, disse que devíamos ir ao hospital pois o corte tinha sido longo e certamente teríamos que dar pontos. E para resumir, assim foi. Um enfermeiro do hotel fez um curativo e fomos ao hospital onde ele tomou 8 pontos. Meu marido que entrou com ele, porque aí ficou puxado para mim…Se eu não tivesse opção entraria, óbvio. Fiquei com a pequena aguardando aquele tempo que nunca passava. Marido disse que foi de cortar o coração, anestesia bem dolorida, teve que imobilizar ele (ficou enrolado tipo um charutinho) e segurar a cabeça enquanto o procedimento era realizado. A cada troca de curativos era um mini ataque, um mini escândalo, quando fomos tirar os pontos também. Fato que ele deu uma traumatizada, com toda razão. Hoje a cicatriz está lá, bem visível ainda, tendo que passar protetor solar até sei lá quando.

O problema é que esse episódio gerou um trauma em mim, eu estava a um passo dele e não pude evitar o fato. Ele estava numa brincadeira saudável, sem maluquice de criança e se machucou feio. E quando eu não estiver por perto? E se eu não estivesse na piscina, quem ia ajudar ele? Não consigo ficar sossegada se eu não estiver vendo-o brincar quando estamos em lugares mais assim, tudo acho que ele vai se estrupiar, bater a cabeça, quebrar alguma coisa…Fico a louca gritando de longe: “Cuidado”, “Não corre”, “Para com essa brincadeira”… Há 15 dias, bateu a cabeça numa mesa de vidro que quase levou ponto de novo. (Comprar um capacete para ele pode ser uma boa ou evitar bola, porque de novo ele estava indo pegar uma bola). Eu já era meio assim, mas esses 8 pontos pioraram um pouco esse meu lado.

Ele só tem 4 anos e a irmã mais nova é menos sossegada e destemida que ele, então tudo indica que há uma probabilidade dessas coisas de criança ocorrerem. As pessoas sempre me diziam quando eu explicava o que tinha ocorrido: “Normal, coisa de criança” e me davam um exemplo de incidentes semelhantes que tinham vivido. Verdade! Coisa de criança mesmo, mas no meu caso, o adulto (eu) não lidou tão bem com isso. Na noite que ele machucou, tive uma crise de choro: insegurança, dó de pensar nele tomando os pontos, impotência diante de uma coisa tão besta, mas pedi que Deus cuidasse dele todos os dias da vidinha dele. E assim tenho feito, sempre pedindo isso por ele e pela Fê.

E quando a crise de insegurança começa a tomar conta de mim excessivamente, trago à memória o que uma amiga, também mãe, me disse, quando eu queria passar o Davi recém-nascido para dormir no bercinho dele e tirá-lo do meu quarto. Estava meio sem coragem, mas eu dormia muito mal com ele do meu lado, qualquer micro barulho dele eu acordava assustada e nunca era nada. Ela virou para mim e disse com uma naturalidade e um sorriso que lembro até hoje: “Deus cuida.” É isso, Deus cuida! E se tem um lugar onde o exercício da dependência de Deus é ininterrupto e muito forte na minha vida é a maternidade. Sigamos em frente.

 

1 ano e 5 meses de Fê

img_33451Há 1 ano e 5 meses eu me tornava mãe de dois filhos e mãe de uma menina. Sim, passou muito rápido esse tempo, mas lembro perfeitamente da angústia dos primeiros meses, do meu pânico quando minha mãe foi embora e eu me vi com dois. Lembro me perfeitamente da minha insegurança e do medo de saber se eu iria conseguir me dividir sem que ninguém saísse perdendo. O principal medo era de que nem por 1 segundo o mais velho se sentisse menos amado ou menos especial. Por conta dessas lembranças ainda bem vivas e de saber como é a rotina com os dois, tenho zero plano de ter um terceiro filho. Nem se eu fosse milionária rolava. A não ser que isso esteja nos planos de Deus e ele está guardando isso de forma beeeem secreta.

A caçula veio para aprimorar ainda mais minha paciência, para usar de eufemismo aqui. Porque bateu um vento, ela chora e se agarra em mim. A pessoa está a quilômetros dela e ela já cola no meu pescoço, miando que nem um gato. Ela é chorona, chiliques básicos, aquela criança que chama atenção num restaurante, porque ela causa. Mas e daí, né? Tento levar com um mínimo de bom humor, isso vai passar, como tudo na maternidade. Ela é linda, uma boneca, meu amor em forma de menina. Todo dia eu olho pra ela e penso: “Como é linda, meu Deus.” A princesinha da casa, embora a realeza ainda não esteja sendo demonstrada com atitudes. Um desenho caprichado de Deus com direito a olho azul e dessa vez eu nem pedi isso. Ela é um exemplo da criatividade de Deus, mesmo pai e mesma mãe do Davi e completamente diferente do irmão. Demandando reações e posturas nossas como pais completamente diferentes. O segundo filho se dá melhor no aspecto de ter pais mais tranquilos, menos ansiosos e percebi nitidamente essa diferença na minha maternidade com ela. A benção de ter uma criança que dorme bem permaneceu e que come bem também. Aliás, Fernanda puxou a mamãe nesse sentido, já que ela sempre quer comer alguma coisa, não importa o que seja, ela com 1 ano tem prazer na comida, fato.

Com ela eu confirmei a alegria que é ver dois filhos brincando juntos, interagindo, se divertindo, rindo e brigando pelo mesmo brinquedo (já não tããão alegre assim essa parte). A Fê me fez olhar para mim, me fez uma mulher mais bonita, mais atenta, mais cuidadosa e às vezes mais segura.  Isso foi ela e por ser menina, não sei exatamente o porquê, mas Freud certamente tem uma explicação. Diante de algumas situações, me justifico ou me incentivo pensando “Eu tenho dois filhos!”

O pânico de cuidar de dois passou, eu consegui, sei lá como, mas estou conseguindo por 1 ano e 5 meses. Acho que Davi também não “sofreu” com a chegada da irmã e com o crescimento dela, ocupando cada vez mais espaço. 1 ano e 5 meses de uma vida completamente diferente, de mais planejamento, de mais pensamentos, de mais cansaço, de mais confusão e bagunça na casa, de mais tudo de bom que um filho nos dá. Fui abençoada com esses dois pequenos e espero que eles também pensem isso de mim sempre.

Antes e depois

Hoje uma amiga postou a foto do nascimento do seu primeiro filho, aquela foto mais linda da vida, que pouco importa de como estamos fisicamente. É uma foto que sempre nos provoca um sorriso.

A dela em especial até me emocionou. Pela legenda que ela colocou e por eu voltar no tempo e pensar que mal ela sabe tudo o que a aguarda. Naquele momento ela já estava achando tudo inexplicável. Imagina só… O filho tinha minutos de vida e ela já conseguia perceber que a maternidade é inexplicável.

Ela, a partir dali, passa a viver uma nova vida, que nunca mais volta ser o “que era antes”. Muito além do que apenas noites mal dormidas. Muito além do que aquelas tentativas ansiosas da amamentação. Muito além de qualquer coisa que tenhamos pensado nos nossos mais otimistas (e pessimistas) pensamentos.

Depois que me tornei mãe, passei a dividir as pessoas em “com e sem filhos”. São grupos completamente distintos. E os divido sem nenhum juízo de valor, não é por aí. Mas não são comparáveis. Quando uma mulher sem filhos me diz que está cansada, eu concordo e o cansaço é legítimo. Mas o cansaço de filhos é outro. Quando uma mulher sem filhos me diz que não tem tempo para nada, eu da mesma maneira acredito, valido, mas a capacidade de otimizar o tempo quando se tem filhos é outro nível. Da mesma maneira que é uma dor diferente quando a gente vê uma criança de rua, uma mulher grávida dormindo na escadaria da Catedral da Sé. Papo de escorrer lágrima do olho. A gente se torna mais histérica, ao mesmo tempo que consegue com calma falar para o mais velho que não pode brincar de sentar na barriga da irmã mais nova, porque vai machucar muito. A gente consegue de maneira ninja segurar um vômito na mão, mas ter ânsia de vômito diante de uma fralda lotada de cocô.

Nada é mais como antes. Antes do primeiro. Antes do segundo. Lembro com saudades do antes, ao mesmo tempo que tenho dificuldades em descrever como era. Só sei que era menos. Menos tudo. Somos apresentadas a uma nova mulher quando nos tornamos mães, mulheres melhores na maior parte do tempo, mas às vezes piores em alguns aspectos. Mas o saldo é positivo.

Dei boas vindas à amiga. É um mundo novo, um mundo que, usando o maior clichê, realmente não dá para explicar. Ou melhor, dá para explicar, não dá é para entender verdadeiramente a menos que já tenha passado por aqui. Sem dúvida, ela será muito feliz. Eles serão muito felizes.

O verdadeiro sucesso

galo

Inicio do ano – escrita espontânea de “galo”

Essa semana tive a última reunião dos pais na escolinha do Davi. Eu gosto desse momento que a escola nos proporciona, existem dois formatos na escola deles quanto à execução das reuniões. E eu gosto dos dois. Gosto de encontrar as outras mães, elas em muitos aspectos se parecem comigo, me conforta ver que todas elas enfrentam dificuldades, que eu não sou a única que se atrasa para buscá-los, que eu não sou a única que os deixa tão cedo, que coisas que para mim foram fáceis de resolver, para algumas descubro que foi difícil e vice-versa. Gosto muito dessa troca de experiências e ideias.

Mas o principal desses momentos é a conversa com a professora individualmente. É quando antes mesmo de conversar com ela, eu já consigo sorrir ao ler o relatório sobre o desenvolvimento dele, de ir confirmando cada ponto ali registrado, de me alegrar em ver que a escola tem um olhar real e detalhado sobre o meu filho, ressaltando pontos verdadeiros da personalidade dele, a desenvolver e já desenvolvidos. Isso confirma que a escola que escolhi funciona para gente, nos atende e enxerga meu filho de forma carinhosa.

É incrível ver a evolução no aprendizado, é quase que indescritível o orgulho que dá ouvir a professora dizer tantas coisas bacanas sobre o seu filho. Conforme ela vai falando, vai passando um filme na minha cabeça, de todos os perrengues diários que eu passo para mantê-los na escola, para chegar no horário, para que a mochila esteja sempre em ordem, para que o material da natação esteja arrumado, para que o brinquedo de 6ª feira esteja escolhido, para ver se o remédio da febre na bolsa está ok, para fazer o dever de casa e devolver na 3ª feira. E ver que mais um ano se passou e tantas coisas novas ele aprendeu é motivo de muita, muita alegria para mim.

judo

Final do ano: escrita espontânea de “judô”

E, no fundo, isso é que é sucesso para mim. Ver meus filhos bem, ver o quanto eles têm aprendido e se desenvolvido, ver as conquistas deles. Não tenho dúvidas de que boa parte disso é da genética e própria personalidade deles, mas da mesma forma não tenho dúvidas de que uma importante parcela é fruto da influência que nós pais exercemos. E saí da escola como se o feedback tivesse sido sobre mim, para mim, sobre a minha conduta como mãe. Foi um ano muito importante para ele, aprendeu as letras, a reconhecer e formar palavras, a reconhecer os números e quantificar.

Poder viver isso com eles é demais, é uma bênção. Ontem quando abracei a professora meu olho encheu de lágrimas, de felicidade, de alívio por mais um ano ter terminado bem, de gratidão a Deus que é perfeito e que providencia todos os detalhes para que tudo isso seja possível. A evolução deles, de certa forma, é a minha também. No papel que mais demanda meu esforço, minha dedicação, mas no papel mais especial que eu tenho que é o de ser mãe.

 

 

Cansada, mas feliz

Sinto muita, muita falta de não ter nada para fazer. Sinto muita falta de escolher como ocupar o meu tempo, de ter tempo, ter tempo para mim, de ter a mente livre. Parece que desde que me tornei mãe ela está sempre 100% do tempo ocupada, tentando otimizar minha rotina de forma a caber tudo, sempre ocupada pensando neles, pensando que a escola fecha antes de eu sair de férias e não sei como farei com as crianças nos 3 últimos dias, pensando que não tem frutas para comer no fim de semana e eu tenho que encontrar um intervalo para comprá-las.

Só queria chegar em casa, seja de onde for, me jogar no sofá, ligar a TV em um canal X e adormecer ali. Nem lembro a última vez que sentei no sofá e vi TV por alguns minutos. Só queria não ser uma máquina de to-do-lists. Sábado passado tinha tanta coisa para fazer que eu acordei às 6:30h da manhã. Tudo bem que uma dessas coisas era dar um jeito no meu cabelo, mas essa era a única que eu não ia cancelar mesmo, porque minha auto estima estava precisando! Então, para que isso acontecesse, tive que acordar super cedo.

Por dois dias essa semana fiz um treinamento na empresa, na hora do almoço decidi sair sozinha para almoçar, porque queria comer rápido e aproveitar para dar uma voltinha no shopping e porque eu queria ficar sozinha. Ficar comigo, fazer alguma coisa para mim, escolher o restaurante sem perguntar se todo mundo concorda, comer no ritmo que eu estivesse a fim e depois comprar dois shorts e uma blusa. No último dia, o treinamento acabou um pouco mais cedo e eu pensei em aproveitar o tempo e passar no hortifruti para comprar umas frutas…Pensei por alguns minutos e conclui “Que se danem as frutas”, voltei para o shopping sentei num lugar delícia e pedi uma fatia de bolo com um café. Saí dali, comprei dois livrinhos para o Davi (a mente nunca está livre) e ainda deu tempo de comprar as frutas e chegar a tempo na escola.

Comecei o texto dizendo que queria escolher como usar o meu tempo. Mas na verdade eu escolhi e escolho todos os dias: ser mãe dos meus filhos em tempo integral mesmo que eu trabalhe fora. Entende? Eles passam quase doze horas na escola, se eu delegar o pouco de tempo que nos resta juntos durante a semana, ia ferir o que eu acredito, o que eu espero de mim mesma como mãe. Morro de preguiça de dar banho na Fê, mas é isso ai, tem que tomar banho e sou eu mesma que vou dar. Foi essa escolha que eu fiz, eu escolhi ter filhos, eu escolhi continuar trabalhando fora, eu escolhi esse modelo de criação e todas as vezes em que me questiono se eu não poderia contemplar outras alternativas, uma babá por exemplo, eu continuo com a convicção de que é isso. Juro que sinto um sussurro de Deus no meu ouvido dizendo “Continua assim mesmo”. Continuo achando que fiz a escolha certa para mim, para nós e de que outras coisas eu posso deixar de lado, não tem mais jantar todo dia aqui em casa por exemplo. Uma das vantagens com o segundo filho é que sei a velocidade com que as coisas passam, sei que elas passam e novos desafios sempre virão. Sei que tenho construído um relacionamento com eles, tento ao máximo ser uma mãe presente dentro do tempo que disponho com eles.

As pessoas sempre pensam o quão caro é ter filhos e eu sempre digo que o fator financeiro é relevante sim, não seria irresponsável de dizer que isso não é importante, mas a mudança que filho impõe no nosso modelo de vida, nas expectativas, na maneira de ver o mundo é impressionante. Por isso tenho saudade de mim, da leveza de antes da maternidade, da forma despretensiosa de se viver os dias, da época em que achava que sabia o que era cansaço. Mas ao mesmo tempo que tenho saudade, é como se Davi e Fernanda sempre tivessem existido, são eles que preenchem tudo, que consomem tudo também. São a minha herança! E a beleza de tudo isso é que nem o cansaço que sinto há 4 anos, nem a saudade de uma época, conseguem chegar perto do amor que tem dentro de mim, nem da realização que me dá vê-los crescendo e ver suas conquistas.

Sou uma mulher mais cansada, mas sou mais capaz, mais segura e sobretudo mais feliz!

Mãe de menina (?!)

Desde que descobri que estava grávida da Fernanda não consigo entender porque algumas pessoas acham que existem graus de felicidade diferente entre ser mãe de menina ou menino. Caso essa impressão venha de uma mulher que não tem filhos, posso quem sabe, talvez, de repente, me esforçar um pouco mais. Mas se a mulher é mãe, experimenta diariamente o que é se dedicar a um outro serzinho que você ama infinitamente, não entendo não. Eu me choco na verdade.

Na minha primeira gravidez, queria que fosse um menino. Na segunda, como já disse mil vezes, preferia outro menino só para facilitar a vida. Mas fiquei muito feliz quando soube que seria mãe de uma menina, mas teria ficado igualmente feliz se fosse mãe de um outro moleque.

A maternidade para mim, que sou mãe de um casal, não tem absolutamente nada a ver com o sexo. O que vai fazer as coisas serem mais fáceis ou mais difíceis, você ter mais ou menos afinidade, não é o sexo da criança na minha opinião. E sim a personalidade e características do indivíduo. A beleza em ser mãe de dois filhos não está em ter um casal e sim poder ter a experiência de criar dois indivíduos que nasceram dos mesmos pais, mas são completamente diferentes.

Nunca me vi colocando lacinhos numa princesa, numa bonequinha. Hoje eu coloco, compro, acho lindo demais, curto e acho a Fê realmente uma boneca. Mas confesso que há dias que eu tenho preguiça de pentear o cabelo dela, que seria mais simples igual de menino que só passando a mão já está arrumado. Sem falar que um ano depois eu ainda estou aprendendo a pentear direito, igual as tias da escola. Há dias que fica uma confusão na parte de trás da cabeça…

Ser mãe é ser mãe e ponto final. Não consigo ver mãe de menina e mãe de menino. Óbvio que existem as diferenças inerentes ao universo masculino e ao feminino e por essa razão eu queria primeiramente ser mãe de menino, porque acho o universo deles mais interessante em muitos aspectos. Agradeço a Deus por ter me proporcionado a oportunidade de conhecer esses dois universos. Mas do fundo do coração, seria igualmente feliz e realizada e grata se fosse mãe de dois meninos.

Muita, muita preguiça de quem enxerga algum diferencial em ser mãe de menina. Se houver algum diferencial, ele está em ser mãe. E isso nem é mérito nosso. Deus simplesmente quis e dentre todas do universo, Ele me escolheu para ser a mãe da Fernanda e do Davi. Isso é incrível! Isso é o máximo! Isso me enche de alegria. E não a possibilidade de enfeitar um bebê com um laço maior que a cabeça dele. A maternidade é uma das maiores bênçãos que Deus me deu, e isso é o principal.