Precisava desabafar

 

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O que eu queria: me jogar e ficar ali

Nem eram 11h da manhã e eu já estava completamente sem paciência, a cota de paciência diária tinha se esgotado antes da hora do almoço. As crianças me estressaram demais, elas me fazem perguntas a cada 2 minutos, principalmente o mais velho. Eu vou comprar um dicionário para ele, certeza. Não estou brincando. Toda vez que ele quiser saber o que significa alguma coisa, ele procura no dicionário, já vou eliminar 50% das demandas dele. O dia já começou naquela vibe: “Mamãe, não fiz nada, não apertei nada, mas saiu do zoom”. M-E-U-D-E-U-S!! 8h da manhã e eu já estava perdendo a linha…Dei uma surtada de forma controlada aqui, se é que “surtada” e “controlada” cabem na mesma frase. Mas digo controlada porque eu expliquei exatamente como estava me sentindo e disse exatamente o que eu queria: eu estava muito cansada, eu estava nervosa e sem paciência; eu tinha um monte de coisa importante do trabalho para fazer, almoço para providenciar e isso estava me angustiando. E se eles continuassem a me chamar o tempo todo eu ia ficar mais irritada ainda, precisava que eles colaborassem. Pedi que ninguém falasse comigo mais, a não ser que fosse algo urgente, uma emergência e deixei bem claro: “Não quero saber como está o jogador do video game, não quero ver desenho de ninguém, não quero ouvir nenhuma piada, não quero saber o que a Laila fez com a Marinete/Lady Bug, não quero ver nenhum gol.” Claro como água e mais importante do que ser entendida, fui atendida. Eles choraram quietos num canto e contrariando a maioria das vezes, não fiquei com dó deles. Não deve ser a melhor maneira de se comunicar com crianças, mas foi o melhor que eu consegui. Passei o restante do dia à flor da pele, caía um lápis no chão e eu ficava com vontade de sumir. Fui dormir mega desanimada e acordei do mesmo jeito, porque as coisas tendem a continuar exatamente no mesmo cenário atual: sem aulas presenciais e eu trabalhando de casa. Então, vou continuar tendo que lidar com essas interrupções o tempo inteiro, eu já tenho dificuldade de me concentrar, com duas crianças dividindo a sala comigo então fica mais difícil ainda. Antes que perguntem se meu marido não divide comigo, o ritmo dele é muito pior que o meu, ele tem muito mais responsabilidades que eu, tem uma equipe de um tamanho razoável, então durante o dia ele mal sai do escritório (ou solitária, como carinhosamente chamamos). Como sei que tudo não dá e que tenho que escolher qual briga eu vou entrar, a casa é zero prioridade para mim. O que priorizo é o estritamente necessário para sobrevivência: comida, roupas limpas, louças lavadas. O resto é tudo mais ou menos, beeem mais ou menos. E está ótimo. Pela minha mínima sanidade mental, está maravilhoso.

Eu queria dormir e acordar com tudo mais ou menos estabilizado. Queria morar num lugar maior (quem sabe esse ano rola?), queria viajar, nunca tive tanta vontade de viajar e de ir à praia como nesses tempos. Esses últimos dois dias foram deprê total olhando o horizonte que temos, um horizonte que já melhorou bastante, eu sei.Mas longe de ser ainda o que era antes. Ainda vai rolar o que era antes? Alguém me diz, se souber.

Precisava desabafar, embora já tivesse desabafado no papel e verbalmente. Mas quanto mais desabafo, mais leve fica. E tudo o que tenho precisado e buscado, é leveza.

Não desiste!

Já falei algumas vezes que a organização não é algo que nasceu comigo, pelo contrário, quem nasceu comigo foi a prima dela, a desorganização. E desde que tive filhos minha novela diária é buscar viver de forma minimamente organizada, que não me traga prejuízos, atrasos e não me canse física e mentalmente sem necessidade. Por ser algo que me incomoda, procuro aprender sobre e melhorar minha vida. Muito longe de neuras, mas acabou que se tornou um assunto que eu gosto de estudar, de testar. Mas vou só naquilo que faz sentido para mim, cabides padronizados por exemplo não faz sentido para mim (rs). E muito mais do que físico, a organização das ações, das ideias, do como fazer super me animam, falta só praticar.

Hoje postei uma foto da mesa que trabalho no home office, vou espalhando todas as coisas, sem colocar de volta, isso ao longo do dia vai me irritando e na hora do almoço tenho que recolher 200 coisas, porque essa é a mesa onde fazemos as refeições. Dai fiquei pensando como podia minimizar isso, fiquei procurando o que me ajudaria e achei um aparador que ficava na varanda completamente sem uso e organizei minhas coisas ali. Ficou do meu lado, facilitando pegar o que preciso e guardar depois. Pronto! Ficou com uma carinha ótima e apresentável.

Arrumar o que é físico e externo é difícil e arrumar o que está por dentro? Ontem li uma passagem bíblica que falava da santificação, que traduzindo de forma bem rasa é arrumar o que está por dentro e arruma todos os dias. E arrumar o que está por dentro com base naquilo que agrada a Deus e eu sei o que O agrada. A passagem falava para persistir nisso, porque não é uma tarefa fácil e enquanto vivermos ela não terá fim. Hoje assisti um amigo falando exatamamente sobre a mesma coisa: santificação. Quando Deus fala comigo de maneira repetida sobre um mesmo assunto e num curto intervalo de tempo, entendo que é um sinal…rs

E ainda para quem não crê na Bíblia (o que é uma pena…), esse raciocínio também faz sentido, porque todo mundo tem alguma coisa que está fora do padrão. E não padrão estético óbvio, mas de relacionamentos, de atitudes, de posturas. E mesmo quem se diz alheio a padrões, no fundo, segue padrão sim. Embora pareça uma selva, vivemos em sociedade e algumas coisas já estão estabelecidas.

Não adianta a gente esperar mudar o governo, o marido/esposa melhorar, o filho crescer, a empresa nos reconhecer, a gente ganhar mais dinheiro, a gente se mudar de casa ou país, sempre vão existir todas as razões do mundo para a gente fazer o que é mais fácil, o que nos agrada e não seguir aquilo que é o mais adequado, o certo. O que eu chamo de “o que agrada a Deus”. “Não desista!” – foi o que entendi que Deus me disse abordando esse assunto comigo por dois dias seguidos. Cada dia uma nova chance, com oportunidades de melhorar sempre, com soluções que estão na nossa cara há tempos de ser uma pessoa melhor e a gente não viu, como o meu aparador que já podia ter me evitado o estresse da bagunça da mesa desde o inicio da quarentena, há mais de 4 meses.

Persista, sempre.

 

Investimento certo no futuro

WhatsApp Image 2020-07-22 at 21.00.33Criar filhos não é exatamente um lugar de grandes certezas, a gente sempre traça um plano e ao tentar executá-lo, aparecem variáveis que não pensamos, que nem tinham como existir. Porque de uma semana para outra aquela criança pode começar a apresentar um comportamento completamente diferente. Quando menores então, isso é gritante. Você dorme com um bebê que não senta e acorda com o bebê sentado.

Mas uma certeza posso garantir que existe, garanto me baseando na verdade bíblica, mas caso você não creia nela, pode se basear na lógica mesmo (nesse caso dá certo). A garantia de que se nossos filhos não forem disciplinados enquanto crianças eles vão sofrer, mais do que com a disciplina em si. E nós pais, sofreremos também. Eu já falei algumas vezes, que eu tenho muita dificuldade em entender a ausência de disciplina. Eu me esforço de verdade, porque cada família tem o seu contexto, cada criança precisa de uma dinâmica diferente, elas têm personalidades muito diferentes. A gente que tem mais de um filho percebe isso facilmente, como com uma mesma carga genética podem ter duas pessoas completamente diferentes (essa parte fica mias difícil entender só com a lógica).

E nesse caso de ausência de disciplina, recuperar o tempo perdido pode ser uma tarefa ainda mais dolorosa. Se a criança passou a vida toda comendo vendo TV desde a introdução alimentar, vai ficar difícil aos 8 você mostrar para ela que isso não é bom. Se desde os deveres mais simples e rápidos da escolinha, você como responsável nunca sinalizou que isso é prioridade, aos 15 vai ser difícil ela aceitar que primeiro os estudos. Se toda vez que você vai a uma loja de brinquedos, você precisa comprar um presente para seu filho também, a mensagem é que ele pode ter tudo sempre. Se ela só fica calada com o celular na mão, ela nunca vai conseguir ficar tranquila sem alguma recompensa, não vai saber lidar com o tédio e zero habilidade em esperar sem ansiedade (acho que essa é uma das maiores dificuldades da nossa geração). Se ela não cumpriu o combinado, ela PRECISA ser punida. E punição aqui é o que vai causar um impacto nela, ela precisa perder algo. Esses dias minha caçula, protestando por ter sido contrariada, pegou a tiara dela e arremessou na parede. Chamei, dei uma bronca daquelas que ela começou a chorar e disse que ela ficaria a manhã inteira sem a tiara. Só poderia colocar depois do almoço, esse foi o castigo, a punição. Parece uma bobeira, mas sei o quanto a tiara importa para ela, ela veio ao longo da manhã umas 3 vezes me pedir para usar e nas 3 vezes disse que não e relembrei porque ela estava sem. A gente pode ser criativo nos castigos também. Rs!

O ponto é, como uma mãe de dois filhos, te peço humildemente, não permita que seu filho de 6 meses, de 2 anos, de 5 anos, de 8, de qualquer idade, te governe. Disicplinar é muito chato, dá muito trabalho, é cansativo, muitas vezes nos machuca realmente. Mas é um instrumento eficaz para mostrarmos aos nossos filhos que o mundo tem limites e que tudo nessa vida, em qualquer esfera, tem consequência. Talvez seja o único instrumento que temos para ensinar isso. Disciplinar não é falta de amor, não é falta de compreensão, não é tiranismo, não é autoritarismo, não é violência…não é nada disso e nunca será. Os pais ultimamente estão compreensivos demais, demais, a ponto de você não aguentar ficar 20 minutos com uma criança de 6 anos porque ela se tornou um ser humano insuportável, fruto desses pais que só compreendem e não disciplinam.

Para essa receita (que praticamente não tem padrão) dar certo, alguns ingredientes são obrigatórios: amor e disciplina estão nesta lista. E entenda que eles caminham lado a lado e não em sentidos opostos. Disciplinar nossos filhos é um investimento que fazemos na vidinha deles, na nossa e certamente na sociedade que no futuro receberá adultos bacanas ou mimados intragáveis, está na nossas mãos.

Você é uma pessoa interessante?

WhatsApp Image 2020-07-15 at 14.06.47Consegue responder à pergunta do título confiantemente? Digo interessante por dentro, porque por fora é relativamente fácil. Comecei a pensar sobre isso mais intencionalmente quando meu marido fez um curso fora ano passado e vi o quanto a gente desperdiça tempo com o que é raso, superficial. Passado esse tempo, voltei e ouvi recentemente essa provocação: você é uma mulher interessante? Concordei integralmente e me acendeu um alerta sobre isso. Por exemplo, comecei fazendo uma limpa no meu Instagram e já que uso muito essa rede, deixei ali perfis de jornais e outra fontes de informações reais. Outro ponto, a maternidade por um tempo nos torna monotemáticas, focadas no assunto que rege a etapa em que nossos filhos estão: amamentação, desfralde, primeiros passos, fala, escolinha, etc e quando a gente vê eles cresceram, não precisam mais da gente 100% e a gente parou no tempo. Senta numa mesa e não tem um assunto diferente para conversar, nenhum tema que fuja daquele lugar raso que repete o que rolou nos feeds das redes sociais.

Não precisa ser a nerd, não ter momentos de relax e só ler jornal. Mas não dá para gastar a vida somente no “molezinha” de conteúdos descartáveis que explodem nas nossas telas. Em inúmeras conversas aqui em casa, sempre voltamos ao ponto de que precisamos ser intencionais. Intencional nas escolhas dos lugares que frequentamos, dos livros que lemos, na disponibilidade em aprender alguma coisa, mesmo que aparentemente não esteja diretamente relacionado ao nosso universo. Não precisa ter dinheiro, não precisa viajar, se puder é maravilhoso, mas a gente não precisa disso para aproveitar as chances que temos.

E quando a oportunidade passa, a gente tem preguiça, de se aprofundar, de prestar atenção, de crescer, de ouvir, de pensar… a gente não consegue mais focar em nada que nos demande um pouco mais. E isso tem nos tornado, ou melhor, me tornado pouco interessante ou no mínimo acomodada. Se permanecer assim, daqui a 10 anos estarei na mesma posição, falando das mesmas coisas, sem fazer diferença na vida de ninguém.

Acho que vale à pena a gente ter intencionalidade e investir um mínimo esforço nisso, lendo um livro, ouvindo uma música, conhecendo um lugar diferente, experimentando uma comida nova, ouvindo algo que aparentemente não tem relação conosco naquele momento, gastando tempo em ir além. Isso vai desde a leitura da Bíblia até conhecer um parque diferente na cidade em que eu moro há mais de 10 anos e nunca fui.

Sabe quando a gente viaja e não tem preguiça de conhecer os lugares? A gente percebe detalhes, a gente pergunta, a gente lê o nome da rua, come uma coisa estranha, anda no ônibus, no teleférico, a gente se cansa, mas não desperdiça nada. Esse seria um bom ponto de partida e um jeito de começar a ser uma mulher, uma pessoa mais interessante. Certeza que podemos tentar e teremos bons frutos a colher e o melhor, frutificaremos em quem está ao nosso redor.

Medo do “normal”

Descobri essa semana que precisaria participar de uma reunião presencial, a reunião me parece interessante. São dois dias de reunião de trabalho, inteiros, mas para discutir coisas muito interessantes e tenho certeza que vai ser uma oportunidade excelente para aprender, conhecer gente nova, estar junto das principais cabeças da companhia.

Mas ao mesmo tempo, me desestruturou por completo no dia que me deram essa notícia. Estou desde o dia 13/mar sem sair de casa. Saio para ir ao mercado, pegar compras na portaria e ir à casa da minha sogra. E ao mercado vou muito pouco, porque peço para entregar as compras em casa. São quase 4 meses vivendo nessa nova configuração de vida né? E me deu medo de sair. Vou passar o dia inteiro de máscara? É meu rodízio, vou precisar ir de Uber. Como faço? E na hora do almoço? Vai todo mundo sentar perto? E as crianças mais o nível de trabalho que o Diego tem…confusão e medo.  Uma insegurança, uma sensação super esquista de simplesmente viver  minha vida.

Conclusão: tive uma crise de choro, fiz uma pergunta para o Diego, ele não respondeu exatamente como eu esperava e isso desencadeou meu choro. Não consegui parar, sentei no banheiro, porque queria chorar em paz sem nenhuma criança me perguntando nada. Chorei o que tinha que chorar, lavei o rosto e voltei para as minhas planilhas e elaboração da apresentação para essa reunião.

Antes de retornar, fiz uma oração e procurei entender porque eu tinha me desestabilizado tanto com uma simples resposta do meu marido. Refleti e foi tudo isso aí que eu já disse, insegurança danada de sair dois dias de casa, não tinha nada a ver com a resposta dele. Aquilo foi só um gatilho para derramar o choro que estava preso em mim. (Parênteses literalmente: tenho conseguido, graças a n coisas que tenho lido, cursos que tenho feito, a me autoobservar e entender meus sentimentos. Parece bla-bla-bla, mas não é. Isso tem feito uma diferença incrível no meu dia a dia e a maneira como levo as coisas. Entendendo os meus gatilhos e minhas fugas).

É uma loucura tudo isso, que fase mais sem palavras para descrever o que temos vivido. Mais de 100 dias numa rotina totalmente solitária do ponto de vista de família, mas ainda não me sinto à vontade e segura para dar outros passos. As coisas parecem estar voltando, mas as mortes continuam diariamente. O ser humano se acostuma com tudo, feliz e infelizmente, porque acabou que nos acostumamos a ver óbitos diários e achar que a situação está melhorando. Em alguns lugares até pode estar, mas em SP não tenho essa certeza.

Ao mesmo tempo, pensei na angústia de todos aqueles que não interromperam suas jornadas de trabalho durante esse tempo. Quantas incertezas e dúvidas os cercaram principalmente no começo, quando ainda não tínhamos “nos acostumado”.

Sei que poder trabalhar de casa, por ter me mantido empregada, por meus filhos poderem continuar estudando à distância é um privilégio. É uma benção de Deus, sem dúvida. Mas também tenho aprendido que posso ter meus medos, inseguranças, insatisfações ainda que eu seja privilegiada em muitas situações. Continua sendo legítimo.

Mas vamos lá, nem lembro mais que roupas eu tenho para ir trabalhar, minha chave de casa sumiu na quarentena, meu cabelo está branco sinistro, não faço a unha acho que desde fevereiro, mas estou viva, com saúde e posso esquecer qualquer coisa para a reunião, menos o pote de álcool gel e minhas máscaras.

Eu nunca….

  • fiz bolo de fubá
  • fiz pão
  • comprei e preparei espinafre
  • ouvi um audiolivro
  • estudei a Bíblia utilizando livro de comentários bíblicos
  • usei salsão na comida
  • deixei minha filha brincar de massinha pelo meio da casa
  • deixei meus filhos bagunçarem total a sala, a varanda e todo o resto
  • permiti o uso de tablets e TV meio sem critério
  • fiquei tanto tempo sem ir fisicamente a uma igreja
  • fui a um sepultamento com número limitado de pessoas
  • usei máscaras
  • trabalhei 100% remoto e com n ferramentas para viabilizar isso
  • acompanhei e conclui uma série
  • li tantos livros num curto espaço de tempo
  • tive tantas sequências de noites mal dormidas
  • coloquei louro no feijão
  • montei quebra cabeça já adulta
  • passei tanto tempo com meu marido e filhos ao longo de todo dia
  • senti tanto medo de contrair uma doença

…até que o COVID apareceu, o isolamento social surgiu e 100 dias depois, a Quarentena me permitiu ver, viver e sentir muitas coisas pela primeira vez.

O cheiro de gasolina da infância

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Rio Negro e a lancha da infância

No domingo, fomos à casa da minha sogra (estamos respeitando o isolamento social, vamos quinzenalmente lá, porque isso se fez importante depois que perdemos meu ‘sogro’) e paramos para abastecer o carro. Meu filho comentou que achava o cheiro de gasolina ruim e meu marido lembrou que na infância dele, ele gostava de sentir esse cheiro. E eu complementei: “Eu também gostava, esse cheiro me lembra dos meus passeios de barco quando era criança e a gente parava no meio do rio para abastecer”. Davi pirou: “Você já andava de barco quando era pequena?”

Morei em Manaus até praticamente meus 10 anos. Nasci lá e um passeio comum, comum entenda como quase todos os fins de semana, íamos passear de lancha. Meu tio Rodrigues (que há 4 anos vive em forma de saudade no meu coração) tinha um barco maiorzão quando éramos mais novas e depois ele trocou por uma lancha e é dela que minhas lembranças são mais fortes. A gente andou muito ali, eu amava! Amava todo o ritual que antecedia o passeio, tudo o que os adultos precisavam separar, os coletes de cor laranja, escolher os lugares que a gente sentava na lancha, parar no meio do Rio Negro e pular da lancha num mergulho corajoso, porque a gente não enxerga nada embaixo d’água. Rio Negro tem cor de coca cola, para a sorte da coca cola. A gente escolhia uma praia, parava a lancha e ficava ali um tempo. Também parávamos num restaurante flutuante e almoçávamos…e a chatice era esperar a digestão para voltar a nadar no rio. Peixe Boi se chamava o flutuante que sempre íamos, lembro até hoje. E em determinado momento do passeio, a gente parava para abastecer. Aquilo era quase mágico para mim, um posto de gasolina no meio daquele riozão, flutuando. E o cheiro. Até hoje é para este lugar que o cheiro de combustível me leva. Um lugar com uma das paisagens mais lindas que já vi, um Rio que só é possível ser entendido para quem já viu, a cor, o tamanho dele…difícil achar palavras que realmente o descrevam de forma fiel. Um lugar que me traz lembranças super doces e divertidas da minha infância, da minha relação e da minha irmã com meu tio, que sempre foi muito forte.

Quando tenho esse tipo de retorno a algum ponto da minha infância, sempre volto ao presente como mãe. E me pergunto que tipo de memórias tenho criado na vida dos meus filhos, o que tenho proporcionado de experiências na vida deles que os marquem de forma que, daqui a 30 anos, eles consigam voltar a um ponto de amor, segurança e alegria vivido no passado. Se me perguntarem para contar sobre meus brinquedos de infância, minha roupa preferida..não vou saber dizer ao certo. Mas essa experiência dos passeios de barco está viva na minha memória! Então, cada vez estou mais convecida que é isso que nos marca e é desta forma que entendo que temos que marcar nossos pequenos. Eles não precisam ter, precisam ser.

Por que o blog?

maquina escreverSempre gostei de escrever e inspirada por uma amiga que na época escrevia num blog, criei um e nele escrevia o que achava e pensava e sentia. Era o meu Livrinho, escrevia para mim mesma e um dia passei a compartilhar os textos no Facebook, foi quando comecei a ouvir comentários positivos sobre o que escrevia. E isso me fez super bem, ainda me faz até hoje. Com a gravidez da Fernanda, acabei ficando meio monotemática, como acontece com tantas mulheres, nessa época criei o Maternidade Plural, que depois passou a ter uma conta no Instagram. Naquele momento escolhi “plural” porque seria mãe de dois e porque tem muita coisa para falar sobre maternidade. Com o crescimento das crianças, a independência delas, fui retomando os temas que até então tinham sumido. Fui deixando de ser a mulher monotemática e ampliei meu repertório. Sempre penso em mudar o nome, porque já não falo mais só sobre maternidade, mas o “plural” continua fazendo sentido. Sou mãe, mas continuo sendo plural, embora a gente tenha uma fase tão singular e focada somente no filho, nos filhos, sem perceber que existe um mundo cheio de possibilidades ao nosso redor.

Sempre fico com a sensação de que parei de escrever, porque me limito ao Instagram. Tanto ao espaço físico dali, quanto ao tempo que ele me rouba rolando o feed e pulando entre stories. Ou pela criatividade que ele também me rouba por acelerar minha mente de uma forma que é zero positiva. Meu sonho é escrever um livro, para mim mesma, ebook ou físico. Os dois na verdade. Amo os livros, amo ler histórias de pessoas que se tornaram escritores depois de um tempo atuando em outros lugares, amo saber sobre a rotina de quem escreve, do processo de escrita e em todos os casos a escrita requer a prática. A própria criatividade é alimentada pelo exercício e pela constância.

Pensei muitas vezes em desistir desse espaço, mas há um apego emocional. A desistência seria talvez por uma comparação ridícula que eu me imponho em relação a pessoas mega bem sucedidas que navegam por esse mundo de redes sociais. A sensação de que para que escrever, se eu alcanço meia dúzia de pessoas? E isso tem uma causa né? A necessidade de ser aceita, de se autoafirmar, de fertilizar aquele orgulho que mora aqui dentro de mim. Durante esse tempo de pandemia, tenho estado muito mais perto de Deus, muuuuito mesmo e o que isso tem a ver com o papo? Tudo! Deus tem sempre a ver com qualquer papo. Quanto mais eu sei de Deus, mais meu autoconhecimento se aprimora e depois de pensar sobre o que estava por trás de “não escrever” aqui, vi que era essa raiz. Uma adoração a mim mesma e ao meu “incrível” (!) talento de escrever um texto qualquer.

Tenho em mim, sempre, uma vontade de fazer diferença na vida das pessoas. De verdade. Através do compartilhar das minhas experiências e, de alguma forma, quebrar o paradigma que existe sobre nós, os crentes e mais que isso, apresentar Deus a quem não O conhece de uma forma simples e real.

Entããããããão, não vou encerrar nada. Rs…Tudo bem se só uma pessoa ler, se uma única pessoa souber que eu sou crente e sou normal, se uma única pessoa disser que gostou. Tenho um espaço totalmente projetado para exercitar minha escrita, prontinho para escrever e publicar que é essa plataforma aqui. Aproveitarei esse espaço para voltar aos meus textos, a cultivar minha criatividade, esvaziar e organizar a mente. E exercitar a capacidade de não precisar de aprovação de outros, a vida não é medida em likes né? Nem em seguidores, nem em lives, nem em stories e nem em quantidade de textos postados em blogs. É tão mais que isso…as palavras têm um poder incrível de nos transportar a lugares, de alcançar o sentimento de quem não conhecemos, de acalmar nossos anseios e extravazar aquilo que não cabe em nós. E isso, desde sempre, desde que éramos só cartas e que nosso objetivo era alcançar um unico destinatário e isso nos satisfazia.

Tanta coisa essa quarentena me mostrou…acho que voltei pra cá.

Sobre o jeito de se vestir

Hoje recebi 3 comentários sobre o que eu vestia: um elogio para o meu anelzinho, para o colar e outro completo, dizendo que eu estava elegante. Isso para mim significa muita coisa, não por ser vaidosa, mas por eu ter auto estima meio ruim e ter passado a minha vida inteira me rotulando como uma mulher sem graça e sem estilo (minha irmã que o diga). 

B7CC30F9-7233-466D-B3D4-62F6B5E203C0.jpegEsse ano fiz uma consultoria de estilo, um modelo que era mais viável finaceiramente, porque não é uma coisa barata. Mas, me dei de presente e não me arrependi. A consultoria consitiu em fazer alguns exercícios enviados previamente, para entender melhor minha rotina, meu estilo de vida, o que não gosto, etc. Algumas conversas e ao fim a entrega de um diagnóstico, falando várias coisas, dando várias dicas. Foi um divisor de águas no sentido de me aceitar e pensar em mim, foi uma terapia Nunca me achei feminina e ela me disse, em uma de nossas conversas, que eu era Mãe, e isso é o que talvez de mais feminino exista. Além de me conscientizar que não é de um dia para o outro que a gente muda, é um passinho de cada vez, um aprendizado.

Descobri, o que parece óbvio, para ser feminina não preciso parecer a Barbie; posso estar bonita, sem gastar tanto,  sem ferir meu estilo. Gosto de conforto, de praticidade e o preço das roupas faz diferença para mim. Mas comecei a expandir minhas opções, usando uma 3a peça, sempre um acessório, e roupas que combinem comigo, não adianta eu compar uma roupa sexy, um salto maravilhoso, não gosto de usar. Também não adianta comprar por comprar, sem pensar, só porque está baratinho ou porque é o que se está usando. Estão usando animal print, gosto em acessórios. Mas cropped, por exemplo, sem condições; ou aqueles tênis grandões, detesto. 

Hoje estava de saia lápis, mas jeans (uma peça feminina), comprada numa loja fofa na Black Friday num preço que me permito pagar (o que não seria factível fora da Black). Uma baby look branca lisa da Marisa que tem igual em qualquer varejista. Um anelzinho em formato de estrela, porque fiz a unha ontem e queria destacar minha mão. Uma sandália anabela e um colar coloridão de uma feirinha no Rio. Aprendi em investir em peças diferentes do meu padrão basicão, uma blusa com um modelo diferente, usar camiseta com calça social (já que gosto de camiseta), usar mais saias e vestidos, usar tênis diferentes e que combinem de alguma forma comigo.

Invisto minimamente um tempo pensando no que vestir, depois que visto sempre penso se tem algo que posso melhorar (mudar a blusa,  brinco, o colar, o sapato, etc); na hora de comprar penso, priorizo algumas peças melhores e outras podendo ser mais básicas e o MAIS importante: não uso absolutamente mais nada com o qual não me sinto bem, seja lá qual for o motivo. Nem me importa se está novo ou velho, foi caro ou barato. Outro dia, coloquei uma blusa pra trabalhar e toda vez que passava na frente do espelho em casa achava que não estava boa a estampa com a minha brancura atual…por fim, tirei. Não saio com nada que me faça sentir mal, se eu fosse bem resolvida, beleza. Mas não é o caso. Não posso passar 10 horas do meu dia com algo que não está me fazendo bem. 

E o meu texto é só para isso, no final. Não para indicar uma consultoria…mas para dizer que dá para se sentir bonita sem ferir o nosso jeito genuíno, mas não dá para ter preguiça de pensar e também não é só copiar look de revista ou da pastinha do Pinterest…como eu sempre tentei fazer. Também precisamos tentar! E o principal mesmo é só usar o que me faz bem.  

A maternidade é o que de mais feminino pode haver mesmo, mas foi essa maternidade que na demanda pela praticidade, acentuou algo que já me incomodava. Mas nunca é tarde, 7 anos depois estou eu aqui tentando fazer diferente e estou satisfeita com meus pequenos avanços. Tentem! Tentem avançar e eliminar aquilo que não faz bem.

Administrando a (insistente) culpa

Por mais que tudo esteja bem, que a gente se esforce, parece que a culpa sempre está ali, guardada em algum cantinho escuro e de vez em quando ela aparece. Dando um oi, deixando claro que faça o que fizer, ela sempre estará lá no canto dela. Uma vez assisti a uma palestra onde a mãe palestrante disse que a culpa aparece, faz uma visita, mas não mora na casa dela não. É bem isso.

Voltei a trabalhar há 2 meses depois de 1 ano e meio em casa. Como já disse outras vezes, não ficava full time com as crianças, porque não ia conseguir mesmo. Elas permaneceram no integral na escola. E disso não senti culpa, porque sabia que zelava pela minha sanidade, pelo menos naquele momento.

Estar de volta ao trabalho tem sido uma grata experiência, fiquei com quase nada de tempo livre durante a semana e isso é ruim. Mas faz parte da escolha que fiz. Porém, me parece que estou numa empresa que tem mais a ver com o meu perfil, meu jeito de ver as coisas e isso torna a rotina menos pesada.

A primeira culpa na volta ao trabalho foi transferir as aulinhas de futebol que antes eram duas vezes por semana, para apenas aos sábados e em um horário mais cedo. Quando comentei isso com o Davi, ele mesmo disse que tudo bem, o importante era continuar fazendo. Mais maturidade que eu do alto dos seus quase seis anos. Pronto, a culpa veio e foi embora.

Agora a outra, é que as crianças têm que acordar mais cedo do que quando não trabalhava. Mais cedo do que quando eu estava no antigo trabalho ainda. Adaptação para eles e para mim também. A Fernanda ainda dorme na escola à tarde, mas o Davi não mais. E muitas noites vejo que ele está cansado. Isso causa a seguinte acusação da Sra. Culpa: “Por sua causa, por suas escolhas, seus filhos têm dormido menos do que deveriam, prejudicando o descanso e consequentemente o desenvolvimento deles.” Cruel né? Sou uma mãe zelosa, tenho certeza disso, não admito que me acusem dessa forma. Para isso, tenho me organizado ainda mais durante à noite, para que eles tomem banho e lanchem mais cedo, para que mais cedo estejam na cama. Outro dia fomos tão bem na utilização do nosso tempo que até jogamos um jogo de tabuleiro os três juntos (a Fê só causou no jogo, claro). Há dias mais corridos, verdade. Também tenho otimizado o máximo que posso pela manhã, para que eles possam acordar um pouco mais tarde.

Viajamos recentemente e isso quebrou um pouco a rotina de acordar que estava começando a ser estabelecida, eles também se cansaram muito por lá. E somente nessa semana que passou senti que eles começaram a entrar no ritmo novamente. E por uns três dias acordaram espontaneamente. Por enquanto, essa é a rotina da nossa família. É o que sempre digo, cada uma tem o seu modelo e atualmente esse é o nosso. E dentro do que posso, tento minimizar os reflexos “ruins” nas crianças.

A culpa pode vir, mas ela não vai montar acampamento não. Ela não tem esse direito.