Medo do “normal”

Descobri essa semana que precisaria participar de uma reunião presencial, a reunião me parece interessante. São dois dias de reunião de trabalho, inteiros, mas para discutir coisas muito interessantes e tenho certeza que vai ser uma oportunidade excelente para aprender, conhecer gente nova, estar junto das principais cabeças da companhia.

Mas ao mesmo tempo, me desestruturou por completo no dia que me deram essa notícia. Estou desde o dia 13/mar sem sair de casa. Saio para ir ao mercado, pegar compras na portaria e ir à casa da minha sogra. E ao mercado vou muito pouco, porque peço para entregar as compras em casa. São quase 4 meses vivendo nessa nova configuração de vida né? E me deu medo de sair. Vou passar o dia inteiro de máscara? É meu rodízio, vou precisar ir de Uber. Como faço? E na hora do almoço? Vai todo mundo sentar perto? E as crianças mais o nível de trabalho que o Diego tem…confusão e medo.  Uma insegurança, uma sensação super esquista de simplesmente viver  minha vida.

Conclusão: tive uma crise de choro, fiz uma pergunta para o Diego, ele não respondeu exatamente como eu esperava e isso desencadeou meu choro. Não consegui parar, sentei no banheiro, porque queria chorar em paz sem nenhuma criança me perguntando nada. Chorei o que tinha que chorar, lavei o rosto e voltei para as minhas planilhas e elaboração da apresentação para essa reunião.

Antes de retornar, fiz uma oração e procurei entender porque eu tinha me desestabilizado tanto com uma simples resposta do meu marido. Refleti e foi tudo isso aí que eu já disse, insegurança danada de sair dois dias de casa, não tinha nada a ver com a resposta dele. Aquilo foi só um gatilho para derramar o choro que estava preso em mim. (Parênteses literalmente: tenho conseguido, graças a n coisas que tenho lido, cursos que tenho feito, a me autoobservar e entender meus sentimentos. Parece bla-bla-bla, mas não é. Isso tem feito uma diferença incrível no meu dia a dia e a maneira como levo as coisas. Entendendo os meus gatilhos e minhas fugas).

É uma loucura tudo isso, que fase mais sem palavras para descrever o que temos vivido. Mais de 100 dias numa rotina totalmente solitária do ponto de vista de família, mas ainda não me sinto à vontade e segura para dar outros passos. As coisas parecem estar voltando, mas as mortes continuam diariamente. O ser humano se acostuma com tudo, feliz e infelizmente, porque acabou que nos acostumamos a ver óbitos diários e achar que a situação está melhorando. Em alguns lugares até pode estar, mas em SP não tenho essa certeza.

Ao mesmo tempo, pensei na angústia de todos aqueles que não interromperam suas jornadas de trabalho durante esse tempo. Quantas incertezas e dúvidas os cercaram principalmente no começo, quando ainda não tínhamos “nos acostumado”.

Sei que poder trabalhar de casa, por ter me mantido empregada, por meus filhos poderem continuar estudando à distância é um privilégio. É uma benção de Deus, sem dúvida. Mas também tenho aprendido que posso ter meus medos, inseguranças, insatisfações ainda que eu seja privilegiada em muitas situações. Continua sendo legítimo.

Mas vamos lá, nem lembro mais que roupas eu tenho para ir trabalhar, minha chave de casa sumiu na quarentena, meu cabelo está branco sinistro, não faço a unha acho que desde fevereiro, mas estou viva, com saúde e posso esquecer qualquer coisa para a reunião, menos o pote de álcool gel e minhas máscaras.

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