Conta aí, Camilla!


camial e helenaCamilla Winch,
39 anos. Mora na Inglaterra desde 2009, casada com Alex há 5,5 anos. É tradutora e intérprete.

Mãe da Helena de 3,5 anos e de outra menina que está na barriga. 

Porque pensei nela para estar aqui: para dividir com a gente a experiência de ser mãe de uma britânica fofa e criar sua filha num país diferente e tão longe do nosso.

Como conheci a Camilla:  é meio minha prima. Ela, tia Vânia (mãe) e a Renatinha (irmã) eram as poucas pessoas que conhecíamos quando chegamos ao Rio. Quando estava grávida do Davi fomos a Londres e passamos em Brentwood para visitá-la e conhecer a Helena que era um baby.

PARTO, MÉDICOS, ASSISTÊNCIA SOCIAL ♥

Camilla:  Durante a gravidez, você é acompanhada pela “midwife”, a parteira; não um obstetra. O sistema de saúde é público e eles priorizam o parto normal. A midwife faz o parto e se houver alguma complicação, o médico está logo ali. Pode ter o parto em casa, com ótimo acompanhamento e uma ambulância de plantão. Antes de ficar grávida, pensava que ia voltar ao Brasil e fazer uma cesárea.

“Fiz um cursinho pré-natal aqui meio assustada com a naturalidade com que falam que era nosso direito exigir um parto natural, mesmo que o bebê estivesse virado. Puro medo e preconceito.”

Ia ser complicado ter o filho no Brasil e aceitei o destino (rs). Receber a Helena em meus braços depois daquele esforço, pareceu que lutamos para que ela nascesse e ela foi guerreira e eu, humildemente, fui só uma facilitadora.

Muita coisa se resolve com o médico ao telefone, que nem sempre é um pediatra, é um clínico geral. Se ele perceber que precisa de algo específico, envia ao pediatra. Um dia ela teve uma febre alta e eu, no desespero de mãe de primeira viagem, disse: ”vamos ao hospital.” E me dei conta que hospital é para emergência, MESMO. Muita coisa é possível resolver em casa, com o farmacêutico ou uma consulta com o clínico geral, sim.

Há muitas atividades para mães, crianças e famílias no geral. Muitas subsidiadas pelo Council (a prefeitura) como “health visitors”, que são assistentes sociais da saúde. Eles esclareceram muita coisa que me preocupava, como o peso da Helena, se dormia bem, se estava amamentando bem etc., sem precisar consultar um pediatra.

♥ UMA CRIANÇA BILINGUE ♥

Camilla.: Li muito a respeito de criar crianças bilíngues. Tive receio de ela ficar confusa, ter dificuldades na comunicação ou se atrasar na escola. É bom que aprendam mais de um idioma desde cedo, contanto que eu fale com ela em português e o Alex sempre em inglês. E é o que fazemos. Ela entende os dois muito bem. Têm horas que ela parece saber exatamente a diferença, se dirige a mim em português e a ele em inglês. A família que vem do Brasil sempre traz um livrinho, um vídeo, o que é ótimo.

“Ela sabe “Old McDonald’s had a farm” mas também “Atirei o pau no gato”. Ufa!”

Às vezes, ela esclarece: “The window, mummy”. E se eu não entendi direito o que ela quis dizer, ela troca de idioma “janela!”. Mas têm horas que parece que é tudo um só idioma na cabecinha dela, ela mistura tudo. Ela fala: “papai, can you abre this, please” ou “mummy, I want mais leite”. Mas li que uma hora ela separa um do outro,e ela pode se beneficiar disso para o resto da vida.

♥ A ROTINA COM A HELENA

Camilla: Trabalho em casa com tradução, sou intérprete do serviço público e me chamam em prefeituras, hospitais, tribunais etc. A Helena vai para a escolinha três vezes por semana, é quando aproveito para trabalhar. Segundas e terças não tem escola, ela tem “ginastiquinha”, natação, dança e, sempre que o tempo permite, vamos a parques, festivais (festivais mesmo, como Rock in Rio para crianças (risos)), teatrinhos. Não temos empregada, é muito caro. Antes da Helena nascer eu tirava um dia de faxina, agora eu limpo aqui e ali, quase todos os dias. Como conciliar… a gente sempre dá um jeito, né. Agora mesmo estou aqui respondendo, enquanto aguardo a roupa lavar, e ela está assistindo Bubble Guppies rs.

♥ ESCOLAS NA INGLATERRA 

Camilla.: A maioria aqui vai para escolas públicas, são muito boas. As particulares são extremamente caras. Você recebe uma carta do Council e escolhe quatro escolas, que levam em consideração alguns critérios como distância, por exemplo, e até o início de abril nos enviam para qual escola ela vai.

As melhores são as religiosas, e muitas solicitam uma carta do padre (católica) ou vigário (anglicana). Para receber essa carta, só se for parte da igreja mesmo. Tem que ir à missa, participar das atividades da comunidade etc. Senão receber a cartinha, o nome da criança deve ir para o fim da fila. A Helena foi batizada na igreja católica, mais porque eu pensei já na escola, do que por crença ou fé. Como eu e o Alex não somos religiosos e, segundo o padre, já vivemos em pecado, pois ele é divorciado, então seria hipocrisia comparecer. Vamos aguardar a escolha do Council, sem a carta.

O uniforme é básico, tirando a jaqueta ou casaco com o emblema da escola, tudo pode ser comprado numa loja de departamento. Outros uniformes incluem gravata, inclusive para meninas, chapéus e bolsas.

Acho bom que a Helena vá para uma escola pública. Ela vai ter a oportunidade de conviver com vários tipos de pessoas, classes sociais e, possivelmente, várias religiões e culturas. Acho bom que ela aprenda que existe uma diversidade e desenvolva a tolerância.

♥ REALIDADE DAS MÃES BRITÂNICAS 

Camilla: A maioria das mães trabalha fora, em período integral ou parcial, e as crianças vão para escolinha. A licença maternidade é de um ano e as mães têm flexibilidade no trabalho. Conseguem entrar em acordos, trabalhando em horários diferentes.

“Conheço mães que trabalham três, quatro vezes na semana ou até um certo horário. Muitos pais também têm uma certa flexibilidade e conseguem revezar com as mães. Acho isso muito positivo para a família.”

As mães se preocupam menos com a violência. Os índices de criminalidade são bem pequenos. As crianças andam mais soltas, com uma supervisão de longe. É comum ver uma mãe andando na frente e as crianças láaaa atrás seguindo ela de longe. No início, eu pensava: “Nossa, como ela tem coragem (risos).”

♥ ALIMENTAÇÃO 

CamillaAs crianças começam a comer coisas que eu considero porcaria muito cedo. A Helena demorou mais de dois anos para comer um bolo, por exemplo, e não fui eu que dei. Na escolinha, eles dão mais sobremesas que são doces e em casa, a sobremesa era fruta. Não é sempre, claro. Também não gosto muito do que eles chamam de “crisps”, que são as batatinhas chips, os fandangos etc., e vê-se muito por aqui a criança comendo aqueles pacotinhos.

Poucos restaurantes oferecem um cardápio saudável. São hambúrgueres, pizzas e umas linguicinhas que eu não entendo. A Helena come bem, gosta de brócolis, tomate, cenoura, berinjela e abobrinha.

“Não entendo porque um frango precisa ter um formato de estrelinha ou um peixe com brócolis precisa parecer nuggets para criança comer.” – (adorei esse comentário!!!)

A comida vira enfeite e perpetua a ideia de que criança come mal por natureza e de que comida é prazer e não alimento. Mas a maioria das mães tenta, claro, e se preocupa se estão comendo bem. Há muitos alimentos orgânicos e também bastante alimento para criança sem sal, sem açúcar, sódio reduzido etc.

♥ A RELAÇÃO DA HELENA COM O BRASIL 

Camilla: Ela tem um mapa mundi no quarto. Mostro onde a família está, ela reconhece o mapa do Brasil e a bandeira. Desde que nasceu, canto Tom, Cartola e Cazuza para ela. Ela fala que mamãe e vovó falam português e nasceram no Brasil e papai fala inglês e nasceu na Inglaterra. Ela vê aviões no céu e pergunta se estão indo para o Brasil. Ela tem livrinhos muito legais para criança sobre a mata atlântica ou sobre índios do Brasil. Ela já foi ao Brasil várias vezes, mas ainda não no Rio de Janeiro, infelizmente. E tem a família, claro. Nos falamos por What’s app, Skype, Facebook. Tento enviar o máximo de fotos e vídeos , estamos em contato constante.

♥ O QUE FAZ PERDER A PACIÊNCIA NA MATERNIDADE 

Camilla: Paciência nunca foi meu forte e não melhorou com a maternidade. As manhas, os choros sem motivo aparente, em que eu sinto que só bola de cristal resolve porque ela ainda não sabe me explicar, ou por coisa pequena como um raladinho no joelho. A minha vontade é dizer, “ok, caiu, normal, todo mundo cai, levanta, sacode a poeira” etc. (risos). Mas eu retiro forças não sei de onde para consolar a pequena. Quem sou eu para julgar o que é dolorido para ela. Ela é pequena e não tem maturidade para lidar com as próprias emoções.

“O imediatismo infantil. Quando ela quer algo ela repete até conseguir: quero suco, quero suco, quero suco, quero suco… (risos)”

Disciplinar tem sido difícil. Jamais vou bater nela e, no fundo, não acredito em castigo. Acredito em reforço positivo e o efeito disso leva um tempo, mas… mencionei que paciência não é comigo? Pois é.

Ela nunca foi de dormir bem, infelizmente. Já tentei de tudo, acalmar à noite, leite quente, sem TV, rotina, banho e até mesmo a tal técnica do “choro controlado”, mas é muito difícil. Resolve um tempo até que viajamos e a rotina se vai. Vez ou outra ela ainda corre para nossa cama e eu já estou muito cansada para relutar. Prezo muito meu sono. Sentar para comer com calma, também. Fico insuportável se não descanso ou estou com fome. Não era assim, mas é agora.

Eu sinto falta de tomar decisões só para mim. Vivi muito tempo solteira e morando sozinha. Eu gosto de ficar sozinha, realmente.

“Eu gosto de decidir o que quero fazer aos 45 do segundo tempo e, pronto, fazer; sem pensar em ninguém além de mim. Não posso mais. Minha vida não é mais só minha. Não que seja negativo, mas é algo que sinto falta vez em quando.”

♥ COMO SE DIVERTIR E DESCANSAR 

Camilla: Dormir (risos). Eu moro em Essex e não Londres, mais para o interior. Ir a Londres é uma diversão, adoro trens. Ler muito e aprender uma coisa nova. Café na esquina. Assistir seriados. Aproveitar o pouco de sol que temos e sair de casa, viajar. Adoro conhecer lugares novos aqui, com tanta história para contar, da época em que o Brasil nem tinha sido invadido pelos portugueses. Ir ao cinema ou ver um filme em casa mesmo, com o pé para cima. Tomar um vinho, comendo queijo. Sentir o cheiro do verde dos bosques e olhar tantos pássaros diferentes e coloridos, como não dá para se ver morando em São Paulo. Observar no horizonte aqueles moinhos no meio do mar, ao longe, e pensar que aquilo gera uma energia danada só com a força do vento me faz viajar. É poético, até.

♥ O QUE É SER MÃE 

Camilla: A cada dia vou descobrindo uma coisa nova e, ainda sim, não sei se é isso mesmo. Só sei que me parece uma responsabilidade enorme, mais do que pude imaginar. Acho também que o planeta precisa passar por uma mudança radical para as futuras gerações terem o mínimo de qualidade de vida, então… do fundo do meu coração, espero estar criando um ser humanozinho bom. Bom, assim, uma pessoa boa, altruísta, solidária, sensível aos problemas do mundo, tolerante com as diferenças, que contribua para sociedade de alguma forma e, claro, que seja muito, mas muito feliz.

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