Conta aí, Aline!

aline_editada

Aline Salles Kolesnik Hintze da Costa*, 33 anos (*ficou meio grande esse nome, hein?)

Mãe do Edu e da Bia, gêmeos de 2 anos.

Porque ela foi a primeira pessoa que pensei para estar aqui: Profissional dedicada e meio sinistra no que faz. E é sobre esse equilíbrio entre mercado de trabalho e maternidade de gêmeos que quis que ela compartilhasse. Ela é diretora numa empresa de varejo, na área de Operações e Negócios.(Falei que ela era sinistra…)

Casada com o Diogo há 7 anos e Administradora de Empresas.

Como a conheci: na Igreja de Pinheiros, a sogra dela é uma amiga muito querida, aquela que pega o Davi na escola quando tenho alguma emergência. Aline se tornou muito especial, por quem tenho um carinho enorme. Tem uma história de luta, mas de muitas vitórias e eu a admiro por isso, ela me transmite paz e tem um papo muito bom.

♥ Quando se viu grávida de gêmeos, além da alegria claro, bateu um medo de não dar conta de tudo o que estaria por vir mais o seu trabalho?

Aline: Fizemos tratamento para engravidar. Sempre pedi ao médico apenas um bebê, achando que eu tinha algum controle sobre a situação, rs. Depois de algumas tentativas, segui o conselho médico de colocar 2 embriões, senti naquele momento que eu realmente não controlava nada e entreguei. Dois dias antes da confirmação, Deus confirmou no meu coração através de um sinal que eram gêmeos. Meu lado racional não quis aceitar, mas 18 dias depois o ultrassom confirmou que eram dois.

“A reação foi só de alegria, a preocupação passou e só queria agradecer a Deus pela benção, me sentia especial por ter minha oração atendida em dobro.”

♥ Como foi, às voltas da licença maternidade, se ver sem emprego com dois filhos em casa para criar? Bateu algum desespero? (*quando voltou da licença, a Aline foi demitida da empresa em que estava)

Aline: Bateu sim, foi muito difícil. Não só a preocupação financeira, mas foi uma surpresa, para quem mais uma vez achava que tinha o controle de tudo. Abri mão de coisas muito sólidas para tocar o projeto que estava. Foi um mês de tristeza, questionamentos e frustração. Deus deve ter me olhado e pensado, “eu acabei de permitir tantas experiências de cuidado com ela e ela já está em dúvidas se eu estou cuidando de tudo?” Mas depois do 1º mês, tudo se acalmou, Deus abriu oportunidades e uma porta muito melhor para mim e minha família, só tenho a agradecer.

♥ Nesses dois anos, é possível indicar qual a maior dificuldade na maternidade?

Aline: Só uma? Rs. Achei muitas…Não sei como é ser mãe de um só, mas é uma enxurrada de afazeres, sentimentos que nascem num só dia e administrar tudo não é fácil. Agora entendo que a formação em administração, experiência com Logística, Supply Chain, me ajudaram muito, rs.

“O mais difícil sobre a rotina eu acho que é a ausência de pausas”.

Estou sempre ligada, o tempo todo fazendo algo e me organizando para dar conta da próxima atividade. Não existe a sensação de “ufa, é sexta, vou descansar!” Não tenho babá à noite, nem fim de semana, gosto de ser presente.  Sinto falta de um respiro, um banho mais longo, de ver um programa, de ficar com o Di a toa. (*Di é o Diogo, o marido, paulistas chamam as pessoas pela primeira sílaba do nome. Eu também faço isso às vezes.)

O mais difícil é se manter firme sobre o que acredito que é ser boa mãe. É muita gente analisando e por mais que eu não queira, acabo me culpando, me comparando. Ninguém conta o lado B da maternidade e o simples fato de eu sentir o lado B, eu me culpo. Como assim se cansar, sentir falta da sua própria vida, de ficar sozinha, conversar com calma com os amigos, se todos acham que a maternidade é sempre perfeita? Me agarro na certeza de que estou fazendo meu melhor.

♥ Com a maternidade, sua relação com o trabalho mudou ou você conseguiu adaptar a realidade de mãe com o dia a dia de uma executiva? 

Aline: Encaro o trabalho como ferramenta de transformação de vidas e isso não mudou. Quando recebi o convite de trabalhar aqui, disse que eu e a babá tínhamos horário, eles são minha prioridade e que eu não poderia ficar até tarde, etc. Meu chefe foi direto: “Respeito sua vida, sua maternidade e não vou te cobrar por horário. Vou te cobrar pela entrega do resultado como cobro qualquer um”. E isso acontece, fora exceções e viagens que tento sempre fazer bate volta ou ficar apenas 2 dias fora, saio às 18h correndo e cuido das crianças. Tenho uma equipe muito competente e a empresa me respeita, valoriza a minha maternidade e me cobra do mesmo jeito.

“Isso me aperfeiçoou, porque sou cada vez mais objetiva, invisto meu tempo no que é prioridade sendo mais eficiente.”

E claro, tenho um sentimento de admiração, gratidão e respeito maiores pela empresa, meus gestores, pares e equipe que fazem eu vestir a camisa até mais. Puxado e intenso, mas sinto que consegui equilibrar e isso me deixa bem feliz.

♥ Você acha que a relação dos seus chefes ou subordinados é outra agora que você é mãe? Ou seu posicionamento “blindou” qualquer tipo de diferenciação?

Aline: Como mudei de empresa, é difícil comparar. Sempre desperta curiosidade e admiração. “Nossa, você tem gêmeos e ainda dá conta de tudo?” Já ouvi comentários de outras mulheres: “Se você dá conta, eu também posso dar, né?” Além da capacidade de me colocar no lugar do outro, que aumentou com a maternidade e me dão mais serenidade. Mas faço tudo para separar, não uso meus filhos como desculpa. Não marco médico durante o expediente, não falto e faço de tudo para ninguém fazer esse vínculo e conseguir separar a Aline mãe e a profissional. Prefiro assim.

♥ Você tem alguma rotina especifica para manter tudo em dia, seus compromissos e atividades? Você é organizada, planejada para controlar o dia a dia? 

Aline: Tenho facilidade com processos, definir o começo, meio e fim, sou prática e muito objetiva. Não uso nenhum aplicativo, mas sou viciada em planilhas. Tenho a rotina da casa e das contas toda planilhada, meus afazeres do trabalho eu reviso toda manhã e se o assunto não é relevante, fica para depois. Como preciso sair em ponto, sou bem focada e organizada. Mas não uso muitos recursos para me organizar e virar mais uma obrigação.

♥ O que te diverte, te faz descansar um pouco?

Aline: Gosto de correr de manhã enquanto eles dormem, ver seriados e documentários, nada muito sério (minha vida já é séria), gosto de estar e receber amigos e me arrumar com muita calma (quando eles dormem). Isso me faz super bem.

♥ Como é a sua rotina com os meninos ao longo da semana? E fins de semana?

Aline: Acho fundamental a rotina e isso reflete diretamente no sucesso de cuidar de dois. Durante a semana, por 3 dias eu acordo às 6h e treino. Às 7h30 dou a mamadeira ainda dormindo, tomo banho e me arrumo. Às 8h, eles acordam, ficamos de chamego, a Rose* (*Rose é a babá) chega e vou para o trabalho a pé (o que foi uma conquista, nos mudamos para eu dar conta de tudo, estava pesado demais encarar o trânsito). Saio correndo às 18h, dispenso a Rose e brinco até umas 19h30. Oramos juntos, dou o jantar, enquanto preparo o meu e do Di. Assistimos TV nós 4 juntos, nos intervalos trocamos fraldas e escovamos os dentes. Às 21h30, faço as mamadeiras, a gente se despede (umas fofuras) e cada um vai dormir no seu bercinho. Eu e o Diogo dormimos às 23h. Final de semana sempre tem compromissos diferentes. Quando estamos no grupo de louvor da igreja, é uma correria e as avós nos ajudam demais (Salve as avós!). Tentamos manter certa rotina e curtir mais o dia, pracinha, parquinhos que eles curtem mais.

♥ Como você faz com a alimentação deles? O que você procura evitar, o que é terminantemente proibido?

Aline: Sou chatinha. Até os 2 anos não podia nada de industrializado, açucares, etc. Sempre comida caseira, nada de papinha, muita fruta. Hoje deixo ocasionalmente em festas eles comerem o bolo e doces. Está bem difícil controlar a Rose, os avós, tios e amigos.

“Já falei que vou montar um kit de torradinhas integrais, goji berry, geléia sem açúcar, barrinhas e castanhas para deixar nos avós, rs. Eles adoram tudo isso e não vejo necessidade de liberar doces sempre. Se eles gostam de coisas mais saudáveis, por que não?”

O Du é muito grande e forte (20 kilos e projeta 1,9m na fase adulta) com uma pancinha enorme. Não quero incentivá-lo aos doces para não virar obesidade infantil. Sou chata porque só eu jogo a favor, todos acham graça deles comendo besteiras e se eu não insistir, eles comeriam besteiras diariamente.

♥ Quando você perde realmente a paciência e tem vontade de pausar tudo e dormir por horas?

Aline: Dormir eu tenho vontade sempre, rs. Eu lembro de ter perdido a paciência seriamente por duas vezes. A primeira, eles tinham poucos meses e tive uma visita que sabia de tudo, dava ordens o tempo todo de como eu deveria fazer, tudo mesmo. Não via a hora dela ir embora. Hoje me seguro muito para não dar opinião, se alguma amiga precisar, é só me perguntar.

A segunda vez foi com o Eduardo. Ele estragou várias maquiagens e cremes novinhos, um seguido do outro. Dava a bronca, colocava de castigo e 30 minutos depois aprontava outra e não parava. Fiquei muito brava, com vontade de esganar ou fugir ou largar na avó, rs. O Diogo ficou surpreso com a minha irritação. Mas sei que vou perder muitas vezes ainda, está só começando, rs.

♥ O que é ser mãe para você? (*fiquei toda emocionada com essa resposta, não tenho gêmeos, mas muito em breve terei dois)

Aline: É se achar a melhor pessoa do mundo por vê-los me amando e admirando o tempo todo.

“É diariamente ter que escolher em quem dar o primeiro abraço, esquecer o que é ter casa arrumada, sem brinquedo espalhado.”

É virar referência: a mãe dos gêmeos. É se encher de culpa quando os dois precisam de mim e eu tenho que escolher um para dar atenção primeiro. É transformar qualquer atividade numa linha de produção. É analisar com carinho as semelhanças e diferenças de cada um e tentar aprender com isso. É assistir um desenho com os dois braços ocupados de abraço. É transformar qualquer saidinha numa aventura. É gastar dobrado. É ter duas vidinhas para acompanhar e amar ao mesmo tempo. É gerenciar conflitos, porque o brinquedo que está na mão do outro é sempre mais legal. É perceber como mesmo em ambientes tão grandes eles preferem ficar juntos, sempre encostando um no outro. É chamar atenção pela curiosidade das pessoas ao ver a dupla. É ter prazer ao responder mil vezes às mesmas perguntas de quem acha o máximo ter gêmeos, ainda mais um casal. É ver o coração se derreter quando os dois se abraçam e cuidam um do outro. É ter orgulho de receber de Deus o presente da maternidade em dobro e em casal. É ter a certeza de que mãe não ama um filho mais que o outro e no meu coração eles cabem por inteiro.

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